Que faremos quando tudo arde, Lobo Antunes?

tudoardeNum interessante artigo publicado no Observador, Joana Emídio Marques fala da queda das vendas de António Lobo Antunes. O artigo foca-se no vulto maior da literatura portuguesa, de entre os autores vivos, porque Lobo Antunes ocupa solitariamente um trono que é só seu desde a morte de Saramago. Foca-se naquele que é o mais conceituado romancista português a nível nacional e internacional, elogiado por grandes romancistas e críticos e pensadores mundiais, porque este autor foi em tempos um fenómeno de vendas. No entanto, o problema de que trata é comum a muitos outros autores e o fenómeno não é exclusivo a Portugal – leia-se, por exemplo, este interessante e preocupante artigo no The Guardian: “Authors’ incomes collapse to ‘abject’ levels”.

O artigo do Observador é bastante acutilante porque, ao focar-se apenas num autor – e num caso muito específico de um autor conceituadíssimo e difícil que, apesar disso, vendia bastante bem em Portugal –, permite que se vá à procura de resposta, que se aventem hipóteses. Essas hipóteses são essencialmente duas: ou os leitores cansaram-se de Lobo Antunes ou a editora já não o promove como promovia antes; e há uma terceira, menos explorada, que é a de a crítica já não lhe dar tanto espaço, o que me parece claramente falso se tivermos em conta que a cada novo romance Lobo Antunes faz capa do Jornal de Letras, dá entrevistas a vários jornais, revistas e televisões e publicam-se opiniões em todos os jornais. Isto para não dizer que a crítica literária não vende livros – e digo isto como alguém que faz crítica literária e já trabalhou em livrarias e editoras.

Se me perguntarem porque é que eu deixei de comprar os livros novos de Lobo Antunes, a minha resposta é fácil: porque me cansei, porque acho que há quinze anos que Lobo Antunes escreve o mesmo livro que já não tem interesse, porque Lobo Antunes me parece, hoje, um escritor preguiçoso e mecânico. Ainda assim, não acho que a minha justificação para já não o comprar sirva para explicar a quebra brutal de vendas. Porquê? Porque eu o li e me cansei de o ler. Acredito que a esmagadora maioria das pessoas que deixou de comprar cada novo livro de Lobo Antunes já há muito que o não lia (se alguma vez o leram). Talvez mais do que os seus livros, o que cansou os compradores foi a figura. Como diz José Riço Direitinho, um dos autores de quem Joana Emídio Marques recolhe depoimentos, Lobo Antunes enche salas no estrangeiro «porque [essas pessoas] não têm que o ouvir dizer as mesmas coisas todos os anos». É fascinante ler ou ouvir uma entrevista de Lobo Antunes pela primeira vez. À terceira ou quarta, contudo, começa a cansar: apercebemo-nos de que os temas são sempre os mesmos e, mais preocupante, as metáforas são sempre as mesmas, as citações são sempre as mesmas, há respostas longas que são praticamente iguais, palavra por palavra.

José Alexandre Ramos, responsável pela página António Lobo Antunes na Web, diz estar «convencido que muita gente continua a ler António Lobo Antunes; apenas deixou de ser moda comprar os seus livros para montra das estantes domésticas», o que vai ao encontro da minha opinião: Lobo Antunes continua a vender para os seus leitores, cujo número não terá diminuído. António Lobo Antunes não é, nunca foi, um escritor de grande público, de massas – mesmo os seus primeiros livros, que geraram o fenómeno comercial, não o eram, mas a escrita rendilhada e avessa aos facilitismos da leitura rápida tem vindo a tornar-se cada menos comercial e menos comerciável. É, então, por culpa do próprio que as vendas dos seus livros têm sido, comparativamente ao que acontecia há uns anos atrás, muito fracas? Em parte, é, mas talvez a outra hipótese seja tão ou mais importante.

Os livros são produtos. Por muito chocante que seja para algumas pessoas ver misturadas num artigo palavras como vendas, marketing e António Lobo Antunes, esta é uma realidade da qual não podemos escapar. Os livros custam dinheiro a quem os faz e a quem os compra e se estes últimos forem em grande número, cobrem os custos dos primeiros e dão-lhes lucro. Todos os produtos de consumo têm uma estratégia de vendas. Será, então, que Lobo Antunes vende cada vez menos porque a editora não investe nessa estratégia como investia antes? É uma hipótese a ter em conta. Quem foi o autor em quem a LeYa, grupo ao qual pertence a Dom Quixote, editora de Lobo Antunes, mais apostou em termos de marketing recentemente? Sem ter números para vos dar uma resposta segura, quase aposto que não me engano: Afonso Reis Cabral, o jovem vencedor do Prémio LeYa.

É que o Prémio LeYa vale 100.000 €, que funcionam como um avanço, isto é, são pagamento de direitos de autor. Logo, o autor não receberá um tusto até que o livro venda 85.000 exemplares (está no regulamento). Vou escrever por extenso para perceberem: oitenta e cinco mil exemplares. Depois de ultrapassado este pequenino número, o autor passa a receber 8% do preço de capa por cada exemplar vendido (ou 5% no caso das edições de bolso). Ora, pagar um avanço a um autor é um gesto de boa fé no resultado das vendas. Quando se paga um avanço de 100.000€, as vendas têm de cobrir essa despesa. É por isso que é um prémio e é por isso que tem um valor tão absurdamente alto: porque a sua existência chega para gerar um grande hype que, espera a editora, se reflicta em vendas.

Se for verdade o que se diz de Lobo Antunes em relação ao dinheiro dos direitos de autor – que ele não se preocupa em ir receber os cheques a que tem direito –, pode assumir-se que a editora prefere investir no marketing de autores a quem pagou avanços maiores. O que, se conseguirmos olhar para os livros como produtos de consumo e não como objectos sagrados, faz todo o sentido. A verdade é esta: o marketing é o factor mais determinante para o sucesso comercial de um livro. É o marketing que faz os fenómenos editoriais como Stephanie Meyer ou E. L. James. Há diversos outros livros que podiam ter tido o mesmo sucesso, mas o marketing pendeu para ali. Foi o marketing que fez 2666, uma obra-prima de Roberto Bolaño, liderar tops de vendas em Portugal. Não foi o facto de ser uma obra-prima, porque há outras que vendem pouquíssimo, foi o marketing.

Claro que a estes dois factores enunciados – o cansaço do leitor (ou seja: a culpa do autor) e o desinvestimento em marketing (ou seja: a culpa do editor) – se somam outros. Um, bastante óbvio, é a crise financeira. Os livros de Lobo Antunes passam frequentemente a barreira dos 20€ de preço de capa e isso, para muitos leitores, é um luxo a que não podem ceder. Outro factor é o volume cada vez mais avassalador de obras no mercado. Se juntarmos estes dois factores, a falta de dinheiro e a quantidade de oferta, é natural que mesmo as pessoas que continuam a comprar livros com regularidade comprem outras coisas, porque há muitas obras boas no mercado, mesmo que percam em número em relação ao lixo que se vai publicando.

Não tenho a resposta infalível para as questões levantadas, mas parece-me que há um fenómeno em volta disto das vendas que é o seguinte: o sucesso é só uma fase do ciclo de vida de um autor – e, atenção, uma fase pela qual só uma pequeníssima minoria de autores passa. Quando essa fase chega ao fim, o volume de vendas, que é disso que se fala (porque, caramba, é isso que dá dinheiro ao autor, não são os elogios dos intelectuais e o reconhecimento da academia), estabiliza no seu número normal de leitores. É o que acontece com António Lobo Antunes agora, é o que já aconteceu com Margarida Rebelo Pinto, é o que começa a acontecer com José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, entre outros. É o que vai acontecer com José Rodrigues dos Santos daqui a uns anos (embora eu tenha a sensação de que já começou também para este). Há uma fase de explosão de popularidade em que muitíssima gente compra e muita gente lê. Depois, lentamente, a coisa começa a cair para muita gente a comprar e alguma a ler. No fim, harmoniza-se no alguma / muita gente a comprar e a ler – ou seja, o autor começa a vender apenas aos leitores que realmente conquistou durante a sua fase de popularidade: o que quer dizer que um Rodrigues dos Santos venderá sempre mais que um Lobo Antunes (durante as suas vidas e alguns anos depois, claro; porque para a História ficará o Lobo Antunes, que continuará a vender regularmente por dezenas ou centenas de anos).

É por isto que há tantas editoras – e tantos críticos a ajudar ao circo – a anunciar todos os meses uma “voz nova”, um “autor original”, uma “prosa inventiva e inovadora”: porque a potencialidade de se tornar fenómeno de vendas está no que é novo. Não deixa de ser curioso verificar que de entre os seis vencedores do Prémio LeYa, apenas dois já tinham obras publicadas: João Paulo Borges Coelho e Nuno Camarneiro. Todos os outros quatro são estreantes. Isto para nem falar do potencial para gerar reportagens e todo o marketing: um desempregado, uma emigrante, um descendente de Eça de muito tenra idade e com um irmão com síndrome de Down. Não faltará muito para que, para entrar no panteão das letras, seja mais importante ter o perfil do que a obra.

_ Gonçalo Mira

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2 comments

  1. É isso mesmo :| O pessoal não entende que literatura como a do ALA, valter hugo mãe e Peixoto não é para se ler todos os meses. E depois escrevem sempre o mesmo, cansa. Não digo que não sejam bons livros com qualidade, mas há livros estrangeiros que me satisfazem bem mais. Tenho mais variedade, mais autores para descobrir e alguns deles são muito bons e humildes. E há sempre aquele problema de haver sempre o mesmo tom, denso, derrotista quando podemos ler tanta coisa com as mesmas mensagens e temas mas abordadas de forma diferente. No fundo é tudo mais do mesmo com autores portugueses de “renome” e a minha paciência para ler as mesmas coisas esgotou-se. Also, sim os livros são absurdamente caros, hence ter apostado nos ebooks (que são caros em Portugal). Um ebook de uma autora nova são 2€ no máximo, não me importo de dar até 5€ por um ebook de uma autora ou autor que adoro. Nem de dar 13€ por um livro de um autor que adoro (seja tradução ou não). Mas agora 20€? 18€ por livros de autores portugueses? Esperei 3 anos para comprar o livro da Maria Teresa Horta em promoção! Estava a 30€. Pensei: Bolas isso é logo um naco do meu ordenado… mas é MTH… mas não tenho esse dinheiro… Esperei e comprei-o por 15 numa promoção da FNAC… Por norma já só compro livros com promoções de 50% no Bookdepository e espero por promoções na feira do livro ou algo assim. Se houver em inglês compro em inglês. As edições vêm sem erros/gralhas e são mais baratos. E como eu, muito pessoal também deixou de comprar em Português. Séries que são terminadas a meio ou a um livro de terminar a série. Dei todos os meus livros da Kim Harrison a um amigo e os da Darynda Jones também. Os da Jones vinham com imensas gralhas e erros era impossível ler aquilo direito e custavam 17€! Em inglês custam 10€ e não vêm com erros :) Sooo yah até os livros ficarem a preços decentes não devo ler tão cedo um livro de um português (o que tenho tentado ler é os ebooks da Coolbooks, mas aquilo mete-me impressão ler no tablet quando tenho um Kobo)

  2. Magnifica análise Gonçalo, gostei muito de ler este texto. Excelente sentido crítico e uma posição descomprometida em relação ao fenómeno livro.

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