Knausgård escreveu um livro fraco e sabe porquê

amortedopaiTodos os trabalhos de grande fôlego têm falhas. Muitas vezes, é a medida certa dessas falhas, o reconhecermos nelas a humanidade do seu criador, que faz dessas obras de grande extensão obras-primas. Estou a pensar, por exemplo, em 2666, de Roberto Bolaño, que é por essas falhas injustamente relegado por muitos críticos e opinadores para a posição abaixo de Os Detectives Selvagens, quando este é, apesar de mais arrumado, pensado e alinhavado, infinitamente menos ambicioso, aglutinador e arrebatador que 2666. O que faz de 2666 uma obra-prima é não apenas a sua ambição desmesurada, quixotesca quase, mas a forma como essa ambição é cumprida com a dose certa de defeitos, os suficientes apenas para que reconheçamos no seu criador um ser humano normal e não uma entidade divina – ainda que seja um ser humano com um talento invulgar para contar histórias.

Onde A Morte do Pai, primeiro volume de A Minha Luta, a autobiografia romanceada do norueguês Karl Ove Knausgård, falha é na evidente incapacidade de estar à altura da sua ambição. O autor parece querer fazer um compromisso que consiste em despir-se diante do leitor, expondo todas as suas falhas de carácter, não para que o reconheçamos como humano, mas como ser extraordinário, arauto da sinceridade levada às últimas consequências, paladino da verdade doa a quem doer. É por isso que nos diz coisas como: «Quando olho para um quadro bonito comovo-me, mas não quando olho para os meus filhos. Isso não significa que não os ame, pois amo-os com todo o meu coração, significa apenas que a importância que têm não é suficiente para dar sentido a uma vida.» Acontece que isto não chega e, curiosamente, Knausgård parece saber porquê. Senão vejamos esta passagem:

«Durante vários anos tentara escrever sobre o meu pai, mas não chegara a lado nenhum, talvez porque o assunto era demasiado próximo da minha vida, e portanto nada fácil de transpor para outra forma, o que naturalmente é um requisito da literatura. É essa a sua única lei: tudo tem de se submeter à forma. Se alguns (sic) dos outros elementos for mais forte do que a forma, como o estilo, o enredo, o tema, se algum deles se apoderar da forma, o resultado será pobre. É por isso que os escritores com um estilo forte escrevem muitas vezes livros fracos. E também é por isso que escritores com temas fortes escrevem muitas vezes livros fracos. A força do tema e do estilo deve ser destruída para que a literatura possa existir.»

É por isso que Knausgård escreveu um livro fraco? É uma hipótese, retirada da própria teoria do autor, porque aquilo que acontece em A Morte do Pai é um tema a sobrepor-se à forma, pois esta é, as mais das vezes, aleatória e descuidada, não porque tente imitar o ritmo do pensamento e da memória, mas porque o reflecte como mecanismo de desbloqueio – é o móbil que faz avançar a narrativa, sem que haja qualquer preocupação retrospectiva: a ideia que passa é a de um autor que vai decidindo o que fazer do livro à medida que o escreve e não se preocupa minimamente em arrumar o todo no final. A primeira parte é bastante ilustrativa deste defeito. À medida que vai construindo um retrato da sua infância, o autor vai acrescentando dados à medida que se lembra deles e que surgem como corpos estranhos, que o leitor tem de inserir na informação já adquirida. É assim que descobrimos amigos chegados do jovem Karl Ove, que estavam presentes na sua vida nos anos já relatados, sem nunca terem sido mencionados; é assim que descobrimos, passados muitos anos, que Karl Ove jogava futebol e que tocava e tinha uma banda; e tudo isto poderia ser muito mais harmonioso, muito mais fluido, se tivesse havido uma preocupação de, concluída a obra, fazer dela um livro. Isso não foi feito e o que se apresenta terá interesse enquanto esqueleto de construção, mas dificilmente enquanto narrativa acabada.

Do estilo pode dizer-se que, pela amostra analisada, Knausgård é um executante mediano. As descrições não são minuciosas, como alguns críticos aventaram, mas quantitativas, exaustivas e muitas vezes desprovidas de qualquer interesse. O autor não descreve um ambiente geral ou um objecto particular, faz quase sempre meras enumerações: quantas árvores, quantos carros, quantos semáforos, quantas pessoas; e toda esta descrição torna a leitura cansativa porque não dá nada ao leitor, não conflui para a criação de um ambiente, não torna reais os cenários representados por palavras. Quando isto acontece no relato de situações da infância do autor, por exemplo, é inevitável pensar que grande parte daquela descrição é inventada, porque ninguém guarda na memória tantos pormenores. Knausgård parece com isso querer legitimar a sua memória, dar-lhe verosimilhança, como se ao tornar vagas as memórias lançasse a dúvida no leitor; mas não logra consegui-lo e a intenção sai gorada, porque as descrições por enumeração são um caminho penoso no avançar da narrativa e raras vezes servem o propósito de aproximar o narrado do real.

Uma dessas ocasiões em que a descrição funciona ocorre perto do final do livro, quando o autor descreve a casa da avó, onde esta vivia com o filho, pai de Knausgård, que acabara de morrer nessa mesma casa. Toda a imundície descrita exige aquela enumeração exaustiva em cada uma das divisões. Não se dá corpo à casa, não é fácil visualizá-la, devido às lacunas descritivas do autor, mas visualiza-se a decadência, a sujidade, sente-se o cheiro nauseabundo e a casa existe não enquanto construção arquitectónica mas enquanto receptáculo da podridão e da morte. A forma, essa abstracção que Knausgård defende ser a mais importante entidade literária, é perfeita neste momento, e o estilo e o tema estão unidos numa imagem poderosa. Infelizmente, esta harmonia só existe aqui, está ausente de todo o resto do livro.

Será sempre injusto tecer uma avaliação com base em um sexto de uma obra, que é o que aqui se faz. A Minha Luta foi pensado como um livro único e só por motivos práticos foi dividido em seis volumes. Porém, as quase quatrocentas páginas deste volume permitem avaliar o estilo, a mestria narrativa ou a falta dela. Talvez não a forma, porque a forma fará mais sentido quando englobada a obra no seu todo. E se essa forma, que emergirá dos seis volumes, poderá valorizar aquilo que, até agora, é um livro fraco, tenho bastantes dúvidas de que o estilo mude para melhor. Não mudando, a perspectiva de ler mais cinco volumes narrados por um autor a quem faltam claramente noções de ritmo e de contenção, um autor que parece desejar com a mesma força que o odiemos e que tenhamos pena dele, um autor que apoia a sua obra numa técnica, a descrição, que tão pobremente executa, a perspectiva de ler mais cinco volumes desta obra, dizia, é francamente assustadora.

_ Gonçalo Mira

A Minha Luta 1: A Morte do Pai
Karl Ove Knausgård
trad. João Reis
Relógio d’Água
2014

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