“O que é que me passou pelos cornos?” Entrevista a Rogério Casanova

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A ideia de entrevistar Rogério Casanova surgiu de um simples rasgo. Uma ideia genial por dois essenciais motivos: primeiro, porque Rogério Casanova é, sem grande espaço para dúvidas, um dos mais interessantes e criativos e originais cronistas/críticos que surgiram em Portugal nos últimos anos; segundo, porque nós, os entrevistadores, tínhamos finalmente a possibilidade de conhecer Rogério Casanova, o mais fugidio, sem a mais pequena dúvida, dos mais interessantes e criativos e originais cronistas/críticos que surgiram em Portugal nos últimos anos. É preciso dizer de antemão que não foi fácil persuadi-lo do incalculável interesse civilizacional e cultural da entrevista (leia-se: da nossa profunda vontade de o conhecermos). Durante alguns dias, Rogério Casanova vacilou, inquiriu abundantemente acerca da razão que nos levava a querer realizar tamanha tontice, tentou humoristicamente encontrar desculpas e impedimentos. Mas o que é certo é que, e sempre carregado de mil incertezas, lá acabou por assentir (e passaria grande parte da entrevista – e mesmo depois dela – a amaldiçoar-se pelo facto). No fim de tudo, pediu para que esquecêssemos toda a situação: ele daria outra entrevista – uma melhor entrevista, desta vez bem longe de nós, por escrito. E nós, cheios de compreensão, dissemos-lhe graciosamente e carinhosamente, rindo, que não. A entrevista era um facto consumado.

Aquilo que é bem conhecido acerca de Rogério Casanova é aquilo que pode ser lido na pequena nota biográfica que acompanha o seu mais recente livro, Trabalhos de Casa (Relógio d’Água, 2013), que colige o melhor das suas colaborações na imprensa entre 2008 e 2012. Diz-se que Rogério Casanova nasceu em 1980, em Lisboa, que já colaborou no jornal Expresso, no jornal i, no suplemento cultural do jornal Público, o Ípsilon, e na revista LER, onde nos apresentou sempre uma prosa talentosa, cheia de humor inteligente e mordaz e análises pertinentes e surpreendentes. Diz-se que em 2009 publicou Pastoral Portuguesa, uma compilação de alguns dos seus textos do blog do mesmo nome e que em 2010 traduziu A Mecânica da Ficção de James Wood. Aquilo que não é tão conhecido é aquilo que eventualmente aqui se seguirá.

O encontro acabaria por ficar combinado num pequeno mas agradável bar, perto da avenida de Roma, em Lisboa, o Cockpit Bar, pelas 20h. Por acaso, era dia de jogo de futebol entre Barcelona e Real Madrid (informação: o Real Madrid ganhou). O bar permitia visionamento e, igualmente importante, a possibilidade de fumar. Fora esse o único pequeno pedido de Rogério Casanova – um pedido acerca do qual também nós fomos (como ainda somos) sensíveis.

Não é segredo que o nome Rogério Casanova é um pseudónimo literário (e sabemos hoje o verdadeiro nome de “Rogério Casanova”, mas não o dizemos por nada deste mundo). Na altura, a sua fisionomia iludia-nos por completo – e muita brincadeira já se fez por aí acerca da mesma: leves descrições, desenhos, caricaturas, montagens fotográficas, já tudo valeu. Era basicamente um blind date. Tínhamos de informação algo segura de que deveríamos procurar alguém parecido com o jogador grego Georgios Samaras. Nós chegámos um pouco antes da hora (19:50h) e, ocupando a mesa previamente reservada, a todo o momento perscrutávamos a entrada em busca do nosso Samaras literário. Pelas 20h (no ponto), um telefonema: Rogério Casanova estava à porta e perguntava por nós. E nós, sentados numa mesa no primeiro andar, acenámos. Samaras entrava finalmente em campo.

É preciso dizer que Rogério Casanova detém, realmente, algumas parecenças com Samaras. É apenas muito mais baixo. A mãe de “Rogério”, no entanto, continua a achá-lo muito mais parecido com Anthony Kiedis, o vocalista dos Red Hot Chili Peppers. No entanto, o consenso final entre nós, os entrevistadores, era o de que Rogério Casanova mais parecia um jovem e francamente magro David Foster Wallace. É um facto que Rogério Casanova é um grande apreciador de Foster Wallace e nós sabíamo-lo. E talvez isso influenciasse a nossa percepção. Ou talvez fosse o cabelo. Muito provavelmente era o cabelo. Era sem dúvida o cabelo.

Passámos, literalmente, uma noite inteira com ele, sobejamente divertidos. A entrevista rapidamente se transformaria em mais um amena cavaqueira sobre tudo e sobre nada, mas sempre fundamentalmente sobre Rogério Casanova. Antes de ligarmos o gravador, vimos a bola e trocámos ideias avulsas. Depois passámos ao “trabalho”. Por entre uma sempre eterna nuvem de fumo, pedimos alguma comida (3 hamburguers, 1 para cada) e muita cerveja (ao todo 21 imperiais, 7 para cada). Conversaríamos durante cerca de 3 horas (excluindo já as 2 horas adicionais do jogo), saindo do bar já perto da 1h da manhã. A sua namorada acabaria mesmo por lhe telefonar, já cheia de preocupação. E estaria tudo bem? Estava. Rogério Casanova estava ainda na entrevista. “E como era possível que aquele Rogério tivesse tanta coisa para dizer?”, perguntaria ela, aparentemente incrédula. Uma questão que, inicialmente, até o próprio Rogério Casanova havia colocado. O facto, no entanto, era que tinha. E tanto tinha que teve. Algo que a espécie de entrevista que se segue (que não é, nem pouco mais ou menos, a representação total da conversa que ocorreu) apenas o comprova.

Notas finais: 1) Por razões várias, esta entrevista, feita em inícios de 2013, só agora é publicada. Alguma informação está, por isso desactualizada. Rogério Casanova já não tem uma página na LER, após a passagem da revista para a periodicidade trimestral, e o seu livro Trabalhos de Casa ainda não tinha saído quando o entrevistámos. 2) Apesar de os entrevistadores serem dois, decidimos não indicar onde fala cada um de nós, por nos parecer informação irrelevante e porque perturbaria o ritmo de leitura. 3) Optámos por não introduzir nesta entrevista as habituais referências a [Risos], uma vez que as mesmas duplicariam o seu tamanho. Acreditamos que o leitor detectará onde houve galhofa. Em caso de dúvidas, assumam que é tudo galhofa. Rogério Casanova concordará convosco. _ Gonçalo Mira e Tiago Apolinário Baltazar

***

Li que andaste na Faculdade Letras. Porque é que decidiste desgraçar-te dessa maneira?

Pareceu-me boa ideia. Andei em Estudos Portugueses e Ingleses. Comecei dois cursos e não acabei nenhum. Andei em Antropologia duas vezes. Tenho três licenciaturas não concluídas, em três instituições diferentes.

Porque é que não acabaste nenhum deles?

O primeiro, o de Letras, se soubesse o que sei hoje, tinha-o terminado. A meio do segundo ano pensei – são aquelas merdas que se pensam aos 19, 20 anos – “Será mesmo isto que eu quero fazer da minha vida?” Ou coisas mais estúpidas. Achei que aquilo não ia a lado nenhum. A saída mais óbvia seria dar aulas, que era das últimas actividades que me via a fazer. Portanto decidi conhecer outro país, desisti a meio do ano e fui para Inglaterra.

Só foste para Antropologia quando voltaste?

Matriculei-me na Universidade de Edimburgo quando estive na Escócia, mas aí nem um semestre completei. Quando voltei, em 2007, matriculei-me outra vez na Nova e concluí o segundo semestre. A minha família ficou muito orgulhosa.

No Reino Unido, andaste por onde?

Vivi em Birmingham, depois em Edimburgo um ano e meio, e depois voltei para Birmingham. Aquela coisa que os ingleses têm do gap year, entre acabar o Ensino Secundário e a Universidade, basicamente foi o que eu fiz durante sete anos.

Com aqueles empregos engraçados, que ficam bem nas biografias?

E péssimos nos currículos. A única maneira de estes sete anos em Inglaterra me valerem alguma coisa é se, de facto, um dia alguém escrever uma biografia sobre mim. Porque num currículo é horrível. Profissionalmente não teve a menor valia. Quer dizer, aprendi a fazer algumas coisas. Cozinhar. E fazer mesas. Consigo fazer uma mesa, é verdade, mas despedi-me antes das cadeiras. Trabalhei numa agência de apostas, lavei casas de banho num restaurante, cozinhei. Isto é importante: o actor que fazia de Poirot uma vez comeu um pargo cozido por mim. É um dos grandes momentos da minha vida.

O teu interesse pelas apostas nasceu dessa passagem pela agência?

Nasceu aí, totalmente. Nem sabia que havia, não conhecia. Lá o custo de vida é bastante elevado, portanto nunca vivi sozinho enquanto estive em Inglaterra. Dividia casa com outras pessoas e, por ser uma personalidade essencialmente vazia, adoptei os interesses dessas pessoas. Vivi em sete casas diferentes. E portanto era assim: estes gostam de beber e de drogas, vamos a isto durante um ano. Estes gostam de ir aos cavalos, vamos aos cavalos. E essa ficou. Aquilo era giro. Entretanto passou-me. Agora, apostas só no futebol, no Mundial e no Europeu, por brincadeira.

Chegaste a gastar dinheiro a sério?

Cheguei. Aliás, em 2002 – tinha eu 22 anos, é bom que fique claro – cheguei a ter o projecto durante um mês de viver do jogo.

E conseguiste?

Não. Durou um mês.

Maioritariamente perdias?

Que é o que acontece à maioria das pessoas.

Nunca tiveste um ganho espectacular?

O maior ganho que tive de uma só vez foi em futebol, nem foi em cavalos. Foi num golo que o Zidane marcou contra Portugal. Fiz daquelas apostas em que pensei: “Ok, vou apostar uma quantia absurda nisto – que era o equivalente ao subsídio de férias – e se correr mal Portugal ganhou, é fixe; se correr bem, enfim, tenho imensa pena Portugal mas ganhei uma batelada de dinheiro.” E foi o que aconteceu. No Mundial de 2006.

Como é que começou o blogue Pastoral Portuguesa e porquê?

Começou indirectamente por causa do DN Jovem. Quando vim a Portugal passar férias, em 2006, reparei que alguns dos nomes de que eu me lembrava do DN Jovem tinham essas coisas chamadas blogues. Descobri o que era um blogue, em parte, por causa deles; nomeadamente o Pedro Mexia, o Alexandre Andrade, o Zé Mário Silva e o Pedro Lomba. E comecei a ler blogues por causa disso, porque eram nomes de que eu me lembrava. Eventualmente pensei: “Está bem, vou ter um também”, porque a dada altura toda a gente tinha. Comecei a falar com amigos e havia alguns que nem sequer liam um jornal de vez em quando, mas tinham um blogue.

O título é adaptado do Philip Roth, não é?

Não, não é, a sério que não. Foi escolhido da forma mais estúpida possível. Tentei vários títulos e já todos existiam. Salvo erro tentei 3 ou 4 e já todos estavam ocupados – o que prova a minha originalidade. Depois usei o método de abrir o dicionário e ver a primeira palavra que aparecesse. Apareceu “pastoral” e aí, enfim, por causa da piadinha, meti “portuguesa” à frente. Podia ter sido acetona ou outra coisa qualquer.

Então houve, ainda assim, um jogo com o livro do Roth.

Sim, quando meti “portuguesa” já foi com isso em mente, mas não foi muito pensado, nem sequer é o livro dele de que eu gosto mais. Não houve qualquer espécie de homenagem nem nada que se parecesse.

E depois não te arrependeste do título?

Várias vezes. Todos os dias. Mas, enfim, o que é que um gajo vai fazer? Podia mudar, mas provavelmente a ideia que eu teria a seguir já teria sido usada.

Mas até seguiste o título na LER, para a tua coluna. Podias ter mudado de ideias.

Mais uma vez, não foi ideia minha. Informaram-me: “Vais ter uma coluna e vai ter este título.” “Está bem.”

Rogério Casanova não é o teu nome…

Não.

Porque é que alguém tão novo, tinhas 26 quando começaste o blogue, decide criar um blogue sob pseudónimo?

Não tenho uma boa resposta para isso.

Nunca sentiste vontade de aparecer com o nome verdadeiro? Ou já se tornou de tal modo uma marca que já nem há essa hipótese?

A dada altura a coisa gira de ter um blogue e o blogue começar a ser falado é meteres o teu nome no Google e ver quem é que está a falar dele. O meu nome de nascença é tão banal que era impossível, iam aparecer montes de coisas. Com este nome, não, corre tudo bem. Há um Rogério Casanova que é criminoso no Brasil e existo eu. Somos só nós os dois.

Há um rumor de que Rogério Casanova é um anagrama do teu nome.

Não, não, não é. É, no entanto, um anagrama de “vigorosa coreana”.

Pensaste nisso agora?

Não.

Devias ter dito que sim. Voltando ao blogue. Parte dos blogues que ganharam mais notoriedade faziam comentário político, mesmo que não exclusivamente. A política a ti não te interessa? Nunca sentiste esse impulso?

Não. Mesmo aqueles blogues que eu seguia e que mais me fizeram criar um, não eram de comentário político. Também não cheguei no início. Sei que os blogues em Portugal começaram um bocado à conta disso, o Blogue de Esquerda e o diálogo com a Coluna Infame. Eu cheguei numa fase posterior em que, por exemplo, o Mexia já tinha um blogue muito menos político e muito mais pessoal. Os blogues que eu seguia no início, de facto, mesmo que com pouca frequência, metiam-se por aí, mas não era aquilo que eu mais gostava neles.

Nunca tiveste sequer essa tentação?

Não sei, nunca falei de política, pois não?

No livro Pastoral Portuguesa, que colige alguns dos posts do blogue, há uma definição engraçada da tua posição política. Mas é coisa que não te interessa muito, não é?

Claramente. E felizmente para todos.

Na nota introdutória ao livro, escreves: “São os temas fundamentais do nosso tempo, mas têm recebido das pessoas que não têm blogues uma atenção desproporcionadamente reduzida. É esse desequilíbrio que se tenta aqui corrigir”. Agora, vamos lá ver, alguém que não lia blogues, que não seguia o teu blogue, que não sabia quem tu eras, comprou isto? Achas que chegou a alguém?

Acho que não. Não sei, acho que não.

Não, pois não?

Não.

Eu, por acaso, comprei-o numa feira do livro.

Tu e mais sete pessoas.

Mais barato do que estas imperiais.

Sou um incompreendido, o que é que eu posso fazer?

Dizes, também na introdução, que os textos começaram porque tinhas uma quantidade desmesurada de tempo.

Sim, começou por isso, tinha muito tempo livre. Foi numa altura em que estava entre trabalhos. Estava em Inglaterra, tive de sair de um trabalho e depois demorei dois, três meses até esgotar as poupanças e ter de arranjar outro. Foi nessa altura que o comecei. Já não me lembro ao certo, mas acho que o número de posts nos primeiros três meses andava pelos cem por mês. E depois começou a reduzir radicalmente.

E os posts, ao início, eram muito mais curtos. Depois houve uma fase em que começaste a escrever coisas mais longas.

Sim, porque não sabia o que estava a fazer. Ainda hoje, se calhar, é possível fazer esse argumento. E aprende-se por imitação, como em tudo. Tenho a certeza de que se fosse reler isso, o que nunca vai acontecer, diria: “Esta era a fase em que lia mais estes blogs, esta era a fase onde comecei a ler mais estes”.

Mas tiveste de ler para fazer esta antologia.

Sim, foi a última vez. Aí acho que os reli mesmo todos, de uma ponta à outra.

E não apagaste posts?

Apaguei como?

Posts antigos. Ao releres para seleccionar, não apagaste nada? Não tens esse impulso de apagar coisas de que já não gostas?

Essa merda não é mal vista, não.

Digo isto porque eu sempre tive blogues e naqueles que mantenho, os que duram há mais tempo, às vezes vou apagando posts antigos.

Isso é bem visto.

Mas nunca tiveste esse impulso, então. Ou nunca te lembraste.

Não. Quer dizer, agora ocorreu-me corrigi-los, que é muito melhor. Apagar alguns, corrigir alguns, inclusivamente alguns em que fiz previsões para o futuro – fazê-las parecer mais correctas. Essa merda não está mal pensada, não.

E como é que se deu a passagem para a imprensa escrita, foste convidado?

Sim. No espaço de duas semanas tive o convite do Zé Mário Silva para o Expresso e tive o convite da LER. Acabei por começar mais cedo no Expresso só porque era o mês de pausa da LER, em Agosto, se não teria começado praticamente na mesma semana.

Os livros sobre os quais escrevias eram escolhidos por ti?

No início, mais na LER do que no Expresso, porque o Zé Mário Silva tinha uma ideia bastante boa daquilo que me podia agradar ou não. Eu sugeria de vez em quando, mas ele, até porque estava mais atento àquilo que ia saindo, normalmente sugeria e costumava acertar sempre naquilo que me ia agradar.

Mas não te sentias capaz de escrever sobre um livro de que não gostavas?

Eu cheguei a escrever sobre livros de que não gostei. Mas acho que tenho lacunas. Conhecer muito pouca literatura portuguesa, por exemplo. Tendo em conta aquilo que um crítico faz, quanto mais souber sobre o que o rodeia, o que está na origem da obra que está a ler, melhor. A tarefa também implica fazer ligações, testar ligações. Se eu estou a ler um livro recente de literatura portuguesa, e se não li mais nada nos últimos cinco anos, vou receber aquela obra um bocado no vazio. Quando eu digo que o Zé Mário Silva tinha uma ideia é no sentido em que ele sabia que havia um grupo de escritores, nomeadamente os americanos, que eu conhecia relativamente bem. Portanto dava-me esses, porque sabia que eu faria um texto mais informado.

Porque não literatura portuguesa?

Isto não foi pensado. Comecei a ler cedo, como a maioria das pessoas que gosta de ler. Deriva muito do que se apanha em casa e os meus pais liam mais livros estrangeiros do que portugueses. Eu lia aquilo que eles tinham em casa e depois continuei. E, de facto, tenho lacunas enormes em literatura portuguesa.

Mas tens autores portugueses de que gostas.

Sim, mas poucos. Dos poucos de que gostei, li tudo o que escreveram. Mas tenho lacunas enormes que nem sequer vamos dizer aqui porque é uma vergonha.

Quem são esses de que gostas?

O Cardoso Pires, principalmente. Daqueles de que tenha lido mais do que um ou dois, tirando o Eça e o Cardoso Pires, não há muito. Do Nuno Bragança também li tudo e gosto bastante. Da Agustina li dois livros. De autores mais recentes, contemporâneos, nada mesmo. E por aí fora. Enfim, uma vergonha completa.

O consultório literário da LER foi uma ideia tua?

Sim, é verdade, foi uma ideia minha. Fui eu que pensei nisso, fui eu que propus. Isto é raro.

E recebes perguntas?

Recebo, mas algumas das que já saíram foram inventadas, por mim ou por amigos. Acho que se nota.

Eu era capaz de dizer que eram quase todas.

Não. Até agora, a maior parte das perguntas não foram inventadas. Já tive de arrancar bastantes, porque há meses em que ou só chegam perguntas más, ou que não dá para fazer nada de jeito.

A questão aqui não é pensar que não te enviam perguntas, é acreditar que as perguntas são tão más que vais ter de inventar.

Sim, já aconteceu várias vezes, várias mesmo. Eu diria que já inventei umas dez perguntas.

Já te enviaram poemas?

E pelo menos dois romances. “Era só para saber o que acha.” Um deles tinha quatrocentas e tal páginas.

Com essa tua experiência britânica, só escreves em português?

Já tive dois blogues em inglês, mas já não existem, acho eu. Espero que não.

Nunca tentaste enviar alguma coisa para a imprensa inglesa ou americana?

Não. Quando estive em Edimburgo, escrevi numa espécie de revista caseira, a fazer crítica de jogos de computador. Foi o meu primeiro emprego. A revista teve três números, eu participei em dois.

E quais foram os jogos?

Era o FIFA 2002, salvo erro, e era um jogo de snowboarding, ao qual dei cinco joysticks, porque era óptimo. Havia de um a cinco joysticks.

Ainda jogas ou agora tens demasiadas coisas para fazer?

Desde que comecei a fazer este tipo de trabalho pago, que envolve ler, tive de deixar de jogar. Ou jogar menos. Porque isto ocupa muito tempo. Ler é uma chatice. Temos de estar ali horas, enfim.

E consegues? Às vezes parece que tens um dia de 48 horas.

Porquê?

Parece que já leste tudo e mais alguma coisa. Vais buscar isto e mais aquilo.

Já houve algumas pessoas que me disseram isso. A maioria das pessoas que fica impressionada com pessoas que lêem depressa são, normalmente, pessoas com empregos. Porque ler, para essas pessoas, é uma hora à noite, uma hora aqui, outra ali. Eu não faço mais nada, portanto posso ler dez horas seguidas, que já aconteceu. Tenho uma deadline apertada. Não tenho mais nada para fazer. O truque é esse, haver tempo. Se tens dez horas para ler, lês dez horas seguidas. Se tens um emprego e só podes ler à noite, é claro que não podes fazer isso. É só isto, acho eu. É a diferença.

Consegues ler dez horas seguidas?

Mas quem é que não consegue, se tiver as dez horas? O problema é ter as dez horas, não é? Eu tenho.

Não sei se isso é assim tão simples.

Vamos lá ver, um gajo faz pausas.

Mas às vezes um gajo está farto. Tem de trocar de livro ou seja lá o que for.

Sim, com livros de que não estamos a gostar é mais difícil fazer isso, mas é possível, mesmo assim.

Lês em casa ou gostas de sair?

A não ser que esteja muito frio, há duas esplanadas em Lisboa para onde normalmente vou trabalhar. Há uma história engraçada com uma dessas esplanadas, aquela que eu usei mais vezes. A minha namorada e os meus amigos já sabiam que era sempre para ali que eu ia, especialmente no Verão, quando as temperaturas estão mais aprazíveis. Houve dias em que fui para lá às dez da manhã e saí à noite. Então começámos, por piada, a chamar àquilo “o escritório”.

Nós temos essa piada em Setúbal. E também só pedias um café durante todo o dia?

Não, eu acho que impedi aquele sítio de ir à falência durante muito tempo.

Nós não.

Não por consumir muito, mas, enfim, uma tosta mista de manhã, um almocinho, dois ou três cafés. Aquela merda faz diferença se for feita todos os dias, atenção. Qual foi o problema? Telefonam-me a meio dos dias: “Onde é que estás?” E eu digo: “Estou no escritório”. E as empregadas começaram a reparar e acho que acharam que eu estava a mentir. Um gajo está na esplanada, às vezes não estava só a trabalhar, às vezes vinham amigos beber copos comigo, e depois ouviam-me a atender o telemóvel: “Não, amor, ainda estou no escritório”. E comecei a ser olhado de lado.

Tiveste de mudar de escritório?

Não tive porque o staff foi muito mais instável do que eu. Eu mantive-me ali durante um ano e tal e o staff mudava de três em três meses. Mas houve ali duas pessoas que, de facto, já me olhavam de lado e já não me tratavam da mesma maneira. “Este merdas a mentir às pessoas”.

E essa coisa de ir para o escritório e nunca estar sozinho e nunca conseguir trabalhar aquilo que se pensava que se ia trabalhar?

Pois, isto começou a ser problemático. Felizmente, os meus amigos tinham empregos com horários normais. Mas depois já nem me ligavam, já sabiam que eu estava ali, e apareciam. Tornou-se complicado, sim. Tinha de ir a horas muito específicas para conseguir ler.

Num ciclo de Conversas, as Conversas Orgia Literária, que organizámos em Setúbal, o Pedro Mexia disse que, hoje em dia, com a Internet e o acesso democratizado a toda a informação e a todos os órgãos de comunicação, perdeu-se aquela função, que alguns críticos tinham, de dar a conhecer coisas que não chegavam cá. Mas eu acho que tu, provavelmente inconscientemente, ainda tens esse papel, e é um papel que continua a existir com a Internet porque, simplesmente, há demasiada informação e as pessoas não a sabem filtrar.

É mais difícil isso acontecer. Mas sim, continua a haver o escritor que não está traduzido em Portugal. As pessoas que, nos anos 80, conheciam o escritor que não estava traduzido em Portugal são o mesmo tipo de pessoas que conhece hoje, havendo blogues ou não, tendo lido alguma coisa sobre eles ou não. Eu acho que esse papel ainda existe, e tem um impacto diferente a informação estar disponível online ou na imprensa. Por exemplo, falar do David Foster Wallace num blogue que é lido por quinhentas pessoas ou aparecer um texto grande sobre o David Foster Wallace, que na altura não estava traduzido em português, num jornal como o Expresso ou o Público, continua a fazer diferença. Chega a muito mais pessoas e continua a ter um impacto completamente diferente.

Então esse papel revelador do crítico ainda existe.

Acho que sim. Hoje, de facto, há muito mais maneiras de se saber aquilo que não chega pelos canais tradicionais. Mas esses meios também existiam antes. Eram diferentes, mas existiam. Hoje estão acessíveis a mais pessoas, porque é mais fácil ir à Internet, à Amazon e etc., mas já nos anos 80 o Miguel Esteves Cardoso falava de música que não se ouvia cá, havia críticos que falavam de livros que não estava traduzidos.

Ainda nessa conversa, o Pedro Mexia chegou mesmo a dizer que o papel do crítico estava praticamente a acabar e, na brincadeira, que ele estava a pensar numa nova profissão. Também tens essa visão , de que qualquer dia já não vai haver espaço para a crítica?

Eu tenho essa visão desde o primeiro dia em que comecei, mas numa perspectiva pessoal, de sempre ter encarado isto como um acidente que me aconteceu e que a qualquer momento pode deixar de acontecer. Falando da coisa em si, não estou suficientemente informado sobre o que era exactamente o papel do crítico em Portugal nos anos 80 e 90, por exemplo, porque na altura era novo e quando comecei a ligar a essas coisas saí do país. Aprendi estas merdas todas e o pouco que sei lá fora. A ideia que eu tenho é que essa coisa que ele definiu como a democratização da opinião, chamemos-lhe assim, de facto terá um impacto. Mas isto parte tudo de um problema que são as competências para ser crítico literário, especificamente. São as mesmas que existem para ser leitor, é leres bem e saberes minimamente o que estás ali a encontrar. Ter um dicionário e um lápis, como dizia o Nabokov.

Mas também implica saber escrever.

Sim, implica. O resto é a qualidade de percepção e essas coisas todas que são as mesmas dos leitores. Claro que para persuadires é preciso mais do que dizer simplesmente: “Gostei muito disto.” Desde que eu comecei a fazer isto, que não foi assim há tanto tempo, a tendência tem sido para o espaço diminuir. Em termos da relevância cultural que tem, do impacto que tem nas pessoas, muito sinceramente não faço ideia se mudou alguma coisa. Não sei como era em 93, não sei como era em 2003 e não sei a diferença entre a situação de 2013 e essas todas.

Porque é que saíste do Expresso?

Tive um convite do Público, do Ípsilon, que era bom porque eu gostava do Ípsilon.

E não se proporcionou voltares ao Expresso quando saíste do Ípsilon?

Olha, não sei, não tinha pensado nisso.

Só te dou boas ideias. No Expresso o espaço é mais limitado.

Sim. Não foi o motivo principal para ter aceitado a mudança, mas foi um factor.

Custa-te sintetizar mais as coisas?

Sim, claro.

Essa resposta prova-o. Na LER tens mais liberdade.

Sim, e quando mudei para o Ípsilon foi uma das coisas que perguntei. De facto, a diferença era grande. Podia escrever textos com quatro vezes o tamanho.

Sentes-te mais confortável a fazer crítica, isto é, tens um livro específico e tens de falar sobre esse livro ou a fazer textos mais livres?

Se tiver uma coisa específica de onde partir, corre sempre bem, não dá trabalho nenhum. As crónicas eram sempre um pesadelo e na maioria das vezes fazia a batota de tratar aquilo como se fosse uma crítica a uma coisa específica. Sinto-me sempre mais confortável a partir de uma coisa que está ali e que é sobre aquilo que tenho de falar.

Enquanto leitor eu acho mais interessante o tipo de escrita da crónica, ou seja, quando começas a estabelecer relações inesperadas. Mais do que quando tens uma coisa mais fixa.

Mas foi sempre isso que eu me senti mais à vontade a fazer. Era o que me saía com mais facilidade e, regra geral, foi sempre aquilo com que fiquei mais satisfeito, com as críticas especificamente.

Mesmo assim não fazes muitas. Agora, pelo menos.

Agora só estou a trabalhar para a LER, portanto, faço aquilo que há espaço e tempo para fazer num mês. Mas sim, mesmo quando estava no Público raramente fazia, uma por mês, por aí.

No Público tinhas uma coluna.

Sim, que era mais difícil do que se tivesse de fazer uma crítica todas as semanas. Era mais chato.

Eu estou a perguntar isto porque pensei que fosse realmente uma opção tua.

A proposta foi essa. Perguntaram-me: “Queres ter uma coluna tua para falares sobre aquilo que quiseres?” E antes de saber, ou sequer suspeitar, que isso seria mais complicado do que aquilo de que eu estava à espera, disse que sim. Rapidamente descobri que falar de um livro especificamente continua a ser a coisa que mais me agrada e que acho que faço melhor.

No entanto, essas crónicas aproximam-se mais daquilo que fazias no blogue. Era de esperar que fosse mais do teu agrado.

Eu não me lembro de muitas das crónicas que escrevi para o Ípsilon, mas lembro-me daquele sentimento de – já um bocado nervoso – “Faltam três horas para a deadline, ok, pronto, aqui está um livro de que eu nunca falei, um escritor de que eu nunca falei, vou escrever sobre isto”.  Isto não é bem uma crónica, é outra coisa.

Mas olha que muitos cronistas, americanos e ingleses, escreviam assim as crónicas. Estavam a jogar poker, não me lembro agora do nome do que fazia isto, e a fazer a crónica na altura. Era um bocado aquilo que vinha à mente.

Pois, mas também não sei exactamente o que era pretendido por quem me convidou para ter uma coluna de opinião do Ípsilon. E não sei se foi boa ideia.

Eu acho que foi.

Porque a ideia que eu tenho de crónica, o tipo de crónica que eu gosto de ler, não era bem aquilo que eu fazia.

Que tipo de crónicas é que gostas de ler?

Na imprensa portuguesa, aquilo que eu fazia no Ípsilon não podia ser mais diferente do que fazem os cronistas diários. Há cronistas semanais que escrevem sobre coisas interessantes e que eu gosto de ler: sobre a pastelaria da esquina ou sobre variedades de maçã ou sobre o que aconteceu ontem no Parlamento.

Mas lá está, ou estás a falar do Miguel Esteves Cardoso, que realmente fala das maçãs, ou estás a falar de comentadores de política.

Sim, mas mesmo o Mexia, que faz crónicas semanais, além de ter uma abrangência cultural que eu não tenho, tem uma variedade temática que eu não tinha. Não partia de uma coisa específica, como eu precisava de partir para me organizar. Não me lembro de ter começado uma crónica com um tema, por exemplo.

Eu normalmente começo assim, com um tema.

A ideia que eu tenho dos cronistas é que começam assim: ou de uma situação ou de um tema. Eu não, não conseguia, não era possível. Escrevi quase sempre sobre um escritor, um livro, um filme.

Isso não é necessariamente mau, no sentido limitativo.

Quando eu leio uma crítica e acho que é bem feita, tem qualquer coisa lá para o meio que tem saliência mais geral, é aplicável a outra coisas. “Estou a ler sobre isto, isto é aplicável a este livro, mas isto faz sentido se eu pensar naquilo” e etc.

Já toda a gente percebeu que a tua praia são os autores anglo-saxónicos. Quais são os que mais te influenciaram?

Essa pergunta é horrível. Não podes perguntar isso, não podes usar essa palavra, “influenciar”.

Qual é o problema com a palavra “influenciar”?

Não sei. Quando eu leio entrevistas e vejo um gajo a dar uma resposta honesta à pergunta: “Que autores é que sentes que te influenciaram?” e ele diz os autores de que gosta muito e são todos bons e melhores do que ele, eu penso: “Não devias ter respondido isso”. É mais por isso.

Vais ter que dar uma resposta. Diz autores que são piores que tu.

Eu sempre gostei muito de ler crítica literária, muito antes até de me ter passado pela cabeça que ia fazer isto profissionalmente. Quando fui convidado pela primeira, os modelos que estavam na minha cabeça para aquilo que era uma crítica literária para a imprensa, naquele espaço reduzido, eram aqueles que eu tinha lido, portanto, isso é uma influência. Foram aqueles que eu mais gostava de ler e que me levaram a comprar mais coisas de crítica literária, porque aquilo era muito giro. O Martin Amis, o Clive James. Estes foram os dois iniciais. Depois foi aquele processo de ramificação: aqueles dois diziam bem de outros e eu ia ler esses outros, esses outros posteriormente diziam bem de outros e foi sempre por aí. Mas acho que as duas raízes foram provavelmente esses dois.

E sempre tiveste essa noção de quem eram os autores dos textos? Digo isto porque há muita gente que lê, algumas pessoas até com interesse na crítica literária, mas não dá atenção aos autores da imprensa, como dá aos de ficção.

Eu comecei a ler crítica literária em livro, ou seja, colecções de ensaios e de críticas. Quando comecei a ler na imprensa, e não li praticamente em Portugal, antes de ter saído para Inglaterra, interessava-me pelos autores. Acho que é o processo normal, quando lês uma crónica que te agrada, decoras o nome do cronista e queres ler mais dele. “Esta crítica é boa, esta não, vou decorar este nome para ler mais e aquele para não voltar a ler”.

E que revistas ou jornais literários é que segues?

Ah, muitos, muitos.Está aqui um [aponta para a New Yorker que trouxe]! Isto é uma resposta que vai parecer…

Não faz mal. Podes ser pretensioso, vá lá, nós também somos.

Leio a New Yorker. Gosto muito. As únicas revistas que tento comprar sempre são esta e a Harper’s. A Harper’s compro todos os meses. O New York Review of Books e o London Review of Books compro só quando o índice justifica.

Não segues revistas mais viradas para a ficção, como a Granta?

A Granta tem um preço estúpido, absurdo, não é possível.

Mas tu gostas de ficção científica. Há uma série de revistas. Asimov’s e assim.

Já não tanto. Mas cheguei a comprar algumas aqui há alguns anos… Esqueci-me do nome. Isto é maravilhoso. Uma revista que eu comprei todos os meses…

Os escritores de que tu gostas são anglo-saxónicos e a tua escrita tem muito humor, que é uma coisa que não se encontra particularmente numa escrita tipicamente portuguesa. Achas que o humor é importante na escrita?

Não sei se concordo totalmente com essa generalização, mas eu acho que percebo o que estás a querer dizer.

Pelo menos na crítica, que é uma coisa mais séria.

Sim, sim. Mas lá está, se eu responder à tua pergunta e disser: “Sim, acho importante”, no fundo o que eu estou a dizer é o quê? A crítica que eu comecei a ler, aquela que serviu de modelo, consciente ou não, àquilo que eu faço, tinha humor. É a mesma coisa que estar a dizer: a cerveja é um componente importante de um bar para mim. É aquilo que eu conheço. Os críticos de que eu gostava, e deve ter sido um elemento que me fez gostar deles, tinham humor, que não é exactamente o oposto de serem sérios.

Exactamente.

E atenção que tocámos aqui num ponto importante. Que isto do humor não ser bem o contrário da seriedade, isto é território revolucionário, porque nunca ninguém pensou isso.

Mas em Portugal parece que nunca ninguém pensou realmente nisso.

Na crítica talvez. Conheço muito mal a crítica portuguesa. Muito pior que vocês, tenho a certeza absoluta. Eu lia o Abel Barros Baptista, por exemplo, que tem humor, e gosto muito dele. É capaz de ser o crítico português que eu li mais. E quando dizem que a crítica portuguesa não tem humor, bom, este gajo tem e bastante. A crítica portuguesa mais canónica, aquela que está para trás, não conheço nada bem. Gaspar Simões, Eduardo Prado Coelho, li muito pouco, não estou minimamente confortável a falar dessas pessoas, porque conheço mesmo muito mal.

A crítica actual, a que se pratica agora, não tem humor.

Há críticos de que eu gosto que têm zero de humor pelo meio. Também os leio e gosto muito. A Cynthia Ozick nunca disse uma piada na vida inteira, desde que nasceu, e eu não deixo de gostar dela por causa disso. Portanto, não é uma componente essencial. Posso dizer que é importante para mim porque, de facto, aqueles de que eu gosto mais têm lá isso, de uma maneira ou de outra, quase todos.

E a ficção científica? De onde é que vem esse gosto? Tinhas livros em casa?

Sim, também deve ser das experiências mais banais. As primeiras coisas que comecei a ler eram livros de terror, policiais, ficção científica e depois comecei a ler outras coisas, já bastante mais tarde.

E quem são os autores de que gostas mais?

Que me influenciaram?

Não, aqueles que pudessem jogar no campeonato dos escritores a sério. Há um bocado essa mania, não é?

É uma mania e é fácil de criticar. Entre pessoas que escrevem dentro dos géneros, nomeadamente a ficção científica, há bastantes complexos de inferioridade e esse é um discurso fácil. Lês dez entrevistas a fãs, críticos ou escritores de ficção científica e encontras dez variações sobre este sentimento: “Ah, as pessoas estão sempre a dizer que nós parece que somos um gueto”. São um gueto, se calhar, por motivos que não são assim tão absurdos quanto isso, porque de facto escreveram muita merda. Mas atenção, a minha relação com a ficção científica era muito mais próxima e podia dar uma opinião muito mais informada aqui há dez anos. A ficção científica contemporânea, aquela que se escreveu desde os anos 80, não a conheço quase de todo. Aquilo que eu li quando era puto eram as coisas que apareciam nas colecções, que são os canónicos, aqueles dos anos 50 e 60. Alguns deles conheço bem, outros menos bem, mas não faço ideia de como está o género hoje, não sei o que se faz.

E desses quem é que recomendarias a um gajo como nós, além do Philip K. Dick?

Eu estive a fazer as contas há pouco tempo e o Philip K. Dick é o segundo autor do mundo de quem eu li mais livros. E é um acidente, porque na altura a ficção científica era o que eu gostava, e deste gajo gostei particularmente, mais do que de muitos outros, e ele escrevia imenso. Escrevia bem. Frase a frase, naquele sentido purista, a prosa não é boa. É um autor que se deve ler em tradução, aliás, tem aquela coisa de a tradução às vezes ajudar, disfarça certas caneladas que ele dá. Mas gosto muito dele. Mesmo os livros maus. Li coisas inacreditáveis e gostei de tudo o que li dele. Depois houve outros. Há uma coisa muito boa da ficção científica, um daqueles clássicos da era de ouro, um livro chamado The Stars My Destination, do Alfred Bester, que é uma versão do Conde de Monte Cristo passada no espaço, num mundo onde há teletransportação e há um gajo que tem tatuagens e é bruto e diz asneiras – não posso descrever melhor do que isto. [Entorna uma cerveja acidentalmente.] E é um livro que me deixa sempre entusiasmado quando falo dele. [Longa pausa para secar a mesa e a New Yorker, que sobreviveu com ferimentos ligeiros.] Há gajos na ficção científica que eram bons prosadores. Theodore Sturgeon foi logo o primeiro nome que me veio à cabeça. Dos mais recentes, e quando eu digo mais recentes estou a falar de um autor que começou em 82, o William Gibson. Também o Samuel R. Delany, que tem um livro chamado Babel-17, e o Thomas M. Disch.

Voltando aos críticos e aos autores de quem gostas, como é que é ter um crítico preferido, disseste algures que é o Wood, que não gosta do teu autor preferido? 

É extremamente incómodo. Ai, a minha relação com o James Wood…

Nunca te fez pensar que…

Que eu não sei o que ando para aqui a fazer?

Que o Pynchon não é assim tão bom ou que a opinião do Wood não é assim tão válida?

Fez-me pensar essas duas coisas. Foi uma coisa que eu descobri gradualmente, porque de cada vez que saía um livro novo do Pynchon ele fazia críticas não muito boas. O que é engraçado é que eu fui descobrindo ao longo do tempo. Quando o James Wood começou a parecer o meu crítico preferido – e o que é que isto quer dizer, de uma forma um bocado menos infantil do que dizer “o meu crítico preferido”? Acho que a minha primeira exposição ao James Wood foi numa introdução que ele fez aos contos completos do Saul Bellow. Na altura eu já gostava de ler crítica, como sempre gostei, e a minha reacção inicial foi: “Eu nunca li nada parecido com isto”. Porque o tipo de crítica que eu tinha lido era crítica feita para a imprensa, que é um tipo de crítica diferente da crítica académica. Na altura em que eu lia James Wood, não conhecia coisas como a close reading e as escolas de crítica, não conhecia nada disso. Aquilo que eu conhecia era a crítica que saía na imprensa e que era de vez em quando coligida em livros. E porque é que aquilo me pareceu tão impressionante na altura? Porque havia um bocadinho das melhores virtudes do tipo de crítica que se faz na imprensa. Leveza no tom e tudo isso. E aquilo foi uma novidade para mim, a leitura atenta, a leitura de proximidade, a atenção à linguagem. Uma coisa que eu nunca tinha lido até então: explicar porque é que uma frase era boa. Achei extraordinário. A partir daí comecei a estar atento a tudo aquilo que ele escrevia. Na altura ele já tinha um livro publicado – aliás, eu subscrevi uma revista americana, que era péssima, só mesmo por causa dele, a New Republic – e comecei a perceber as peculiaridades dele enquanto crítico.  O Wood começou a ser quase um objecto de crítica, fizeram-se blogues sobre ele, escrevem-se críticas sobre ele. Ele tem um entendimento muito restrito daquilo que o romance deve fazer e que, de facto, não tem nada a ver com aquilo que o Thomas Pynchon faz. Portanto, se eu na altura soubesse tudo aquilo que sei hoje sobre o James Wood, a primeira crítica que ele faria ao Pynchon não seria de todo uma surpresa, porque é óbvio. Não é daquilo que ele gosta, não é aquilo que ele acha bom, e o único valor que ele dá ao Pynchon é aquele que de facto tem de dar, que é a qualidade da prosa. Se pegarmos naquilo que ele acha que o romance deve ser, e se aceitarmos isso como um dado adquirido, então ele tem sempre razão, portanto eu não o posso levar a mal. Já tentei explicar isto por escrito e fui infinitamente mais articulado do que estou a ser agora. Eu acho que um crítico quando escreve durante muito tempo na imprensa desenvolve, conscientemente ou não, e no caso do Wood é muito consciente, uma tendência para sistematizar as coisas, para procurar coerência, isto é: “É disto que eu gosto, portanto é óbvio que vou gostar disto e não disto, porque até aqui tenho gostado disto”. O Wood tem um naipe muito restrito de coisas de que gosta e de coisas que considera aceitáveis, como a academia que entrega o Nobel, por exemplo, tem, e como muitos leitores têm. A diferença é que articula e justifica melhor do que muitos. Mas tendo em conta tudo isto, ele não gostar do Pynchon é a coisa mais normal do mundo, e não devia ser uma surpresa para ninguém.

Achas que é importante um crítico ter esse nível de coerência?

Não, não acho. Os críticos de que eu mais gosto, gosto porquê? Porque há ali de facto uma personalidade, o livro está a ser filtrado através de uma personalidade, e há coisas que passam e há coisas que não passam, e eu já sei mais ou menos o quê. A partir do momento em que eu já sei aquilo que o crítico vai pensar sobre determinado livro, e a maneira como vai articular o seu elogio ou a sua objecção, continuará a ser tão valioso… Não sei. Foda-se, não queria nada estar a pensar nisto agora. Ainda mudo de ideias em relação a coisas importantes. Não sei, um mínimo de coerência claro que é preciso. Se o crítico disser: “Este livro é muito bom porque faz isto” e na semana seguinte disser: “Este livro é péssimo porque faz exactamente a mesma coisa”, não vai ser útil para ninguém. O James Wood, enquanto crítico, fecha-se demasiado a coisas que também são muito giras – isto é um termo técnico, que nós críticos usamos. O meu vocabulário é impressionante. Coisas muito boas, positivas, enfim. Eu espero que eu não escreva como estou a falar.

Então também gostas das coisas de que o Wood costuma gostar?

Sim. Descobri numa crítica do James Wood – e é capaz de ser das melhores dele – aquele que deve ser o meu escritor vivo preferido. Eu concordei com tudo, portanto tem de ser muito boa. Acho que apanhou aquele autor no ponto e elucidou-o de uma forma muito boa. É um gajo que não era muito conhecido, e acho que continua a não ser, o Norman Rush. Eu nunca tinha ouvido falar dele, na altura em que li a crítica. E abençoado James Wood. Apesar de ter ganhado um National Book Award, era um writer’s writer, um daqueles gajos que são lidos no meio e pouco mais. Também é um daqueles autores que escrevem um livro de dez em dez anos. Dos escritores que descobri por causa do James Wood, esse é a jóia da coroa, provavelmente. Se gosto de tudo o que ele elogia? Regra geral, acho que sim. Mas também gosto de muitas coisas de que ele não gosta nem nunca vai gostar. Aquela expressão que o tornou famoso, “realismo histérico”, que ele refere em duas ou três críticas, com esse conceito ele faz algumas objecções importantes e pertinentes a um determinado tipo de livro de que eu gosto. E o Wood ensinou-me a reconhecer que há ali problemas. Mas acho que ele levou isso longe demais. Já escrevi sobre isto e foi muito melhor do que qualquer coisa que eu vá dizer agora. Acho que ele não sabe ler David Forster Wallace, por exemplo. Há um sítio em Nova Iorque, que é tipo Setúbal mas nos Estados Unidos, onde fazem umas conversas literárias. Não sei se isto ainda decorre, mas organizaram duas ou três, num sítio chamado 92nd Street Y. Estavam a fazer uma série em que levavam um crítico todos os meses para falar sobre um livro específico e o James Wood foi lá falar sobre o segundo livro de contos do David Forster Wallace e foi uma coisa que… Não foi mau, ele tem sempre coisas valiosas a dizer, mas todas as pessoas que lêem têm estas lacunas, há livros onde simplesmente não podemos entrar, há uma lacuna no nosso equipamento que não permite, não dá. Não temos o que é necessário, não temos a receptividade necessária para certo tipo de livros. Já deves ter sentido isso com alguns, não pões em causa a qualidade mas reconheces que não é um livro para ti. Eu já senti isso com alguns, que sei que são bons, aposto que são bons, mas…

Mas a questão é essa. Como é que uma pessoa sabe que são bons? É porque já disseram que são bons e uma pessoa acredita?

Sim, porque não? Se cinco críticos bons, que eu respeito, disserem que este livro é bom, eu acredito mais neles do que na minha opinião. Agora, quando estás a fazer uma coisa profissionalmente, não podes deixar que essa tua impressão emocional, mais do que intelectual, domine o que estás a fazer. Há escritores canónicos que eu sei que são bons de que não consigo gostar, não consigo ler aquilo com prazer. Não saberia articular porque é que são bons, mas nunca me passaria pela cabeça dizer aquelas coisas estúpidas que de vez em quando se diz: “Ah, devo ser eu que sou burro, mas não gosto da escrita do Saramago”. Nunca me apanhariam a dizer uma coisa dessas. E o que é que o James Wood fez? Qual é que é o grande problema? Eu acho que ele confundiu estas duas coisas. Em vez daquilo que devia dizer – “Isto não é para mim” – sistematizou uma coisa muito elaborada para explicar que é mau. [Suspiro.] É impossível isto estar a fazer algum sentido.

Foi uma óptima resposta, a sério. Deve ser a única coisa que se aproveita, mas foi.

Tu estás a falar a sério! Isso teria piada se não estivesses. Assim não, assim é pôr o dedo na ferida.

Eu pus aqui um parêntesis sobre a questão Pynchon-Wood, porque eu gosto de te ler e tu não gostas do Salinger.

Isso não é verdade.

Então? Explica-me lá.

Eu acho que aquilo que o Salinger escreveu nos últimos livros, nos últimos contos, sobre a família Glass, tem inúmeros problemas. A prosa do Salinger é sempre maravilhosa, nunca li nada dele que fosse mal escrito, frase a frase, linha a linha. As coisas sobre a família Glass acho que são quase imperdoáveis para um gajo daquele talento.

Franny and Zooey é para aí o meu livro preferido.

Isso é muito preocupante. Eu não sei se esta relação tem algum futuro.

Podes dizer: “Não é um livro para mim.”

Isso não é um livro para mim. Mas neste caso acho que não é isso. Eu acho genuinamente mau. Não é o não ser para mim, é mau. Aquilo é para adolescentes. Mais ninguém pode achar piada.

Eu acho que podes dizer isso do Catcher in the Rye.

Errado. O Catcher in the Rye é um livro infinitamente melhor do que essa merda que ele escreveu a seguir.

O único livro mau que ele escreveu é o Raise High…

Sim, esse é o pior. O Franny and Zooey está uns grauzinhos acima desse. Mas não quero falar mais sobre o Salinger. Já houve um amigo que ficou chateado comigo. Eu escrevi um texto para LER e recebi hate mail em três doses.

É melhor mudar de assunto, sim. Leste o romance do James Wood?

Li. Eu sei onde é que estás a ir, isto vem aí merda a seguir. É um bom romance. Em que ele faz muitas das coisas que ele próprio já criticou noutros escritores, e ele próprio já disse isto. É tudo o que eu tenho para dizer sobre essa situação. Sobre críticos que escrevem romances, em geral, é tudo o que tenho para dizer.

E o facto de ele ser um crítico com bastante notoriedade e de ter essa ideia muito definida do que gosta e do que acha que uma boa obra deve ter, isso limita-o um bocado enquanto ficcionista?

Eu esperava que limitasse mais e que ele evitasse algumas das coisas que eu já o tinha visto criticar. Não sei se em Portugal há muito essa tradição, mas o que o James Wood possa ter feito de remotamente invulgar é ter invertido a ordem. Todos os críticos, acho que sem excepção, que eu gosto de ler, escreveram romances. Todos. O James Wood se calhar inverteu a cronologia, mas de resto, não me lembro de um único crítico de que eu goste que não tenha escrito ficção.

Mas esse factor, de ele ter feito o percurso inverso, até que ponto isso poderia influenciar a sua ficção?

Estás a ler um romance de um crítico que conheces bem e apanhas uma coisa de que te lembras perfeitamente: “Ok, isto é o tipo de merdas que este gajo normalmente critica”, mas acho que já me aconteceu demasiadas vezes para eu achar que isso é um problema. E não levo a mal sequer. Sou bastante tolerante. Aliás, sou uma pessoa extraordinária, como se mostra por esta entrevista. Isto não vai estar em discurso directo, vocês é que vão escrever esta merda: “Uma pessoa extraordinária em todos os aspectos”.

Mas se calhar há um certo nível de pressão.

Quando eles estão a escrever, duvido muito que seja assim que funcione. Ao nível consciente um gajo estar a escrever um romance e estar a sair-lhe uma frase e ele pensar: “Epá, uma vez critiquei aquele gajo”, duvido muito que isso se passe dessa forma. Não sei. Um escritor que não escreva crítica tem uma ideia mais nebulosa, mais vaga, menos concreta do valor da sua própria obra? Não faço ideia.

Mas um tipo que escreve primeiro ficção tem uma ideia do que deve ser a própria ficção, não?

Não sei, mas tenho sérias dúvidas que isso seja muito generalizável. Até porque há vários tipos de escritores. Mesmo naqueles que pensam de forma elaborada no que vão fazer, não sei se há um esforço consciente que seja prévio, não sei se pensam: “Eu quero que aquilo que me vai sair agora obedeça a determinadas restrições, a uma determinada ideia que eu tenha.” Acho que não. É a teoria que eu tenho. Posso estar completamente errado, mas é uma racionalização que vem depois. E muitos dos críticos que praticam também ficção – isto é um lugar comum mas eu vou repeti-lo, não tenho vergonha –, é engraçado, muita da crítica que fazem é uma justificação daquilo em que eles são bons. Mas essa coisa é a posteriori, acho que não vem antes.

Já tinhas escrito ficção antes daquele conto na LER (#120, Janeiro 2013)?

Já.

E é uma ambição? Uma coisa que penses fazer?

É, é. [Pausa.] Isso não foi um conto, não lhe vamos chamar um conto. Isso foi uma coisa que me disseram: “Ah, parece-te boa ideia escreveres um conto policial?” E eu disse: “Sim, ok”. Tal como disse sim a esta entrevista, por exemplo. Há coisas que uma pessoa depois pensa, dias mais tarde: “O que é que me passou pelos cornos?” Mas pronto, preferia que isso nunca mais fosse mencionado por ninguém na minha presença durante o resto da minha vida, e muito menos que lhe chamassem um conto.

Não ficaste contente?

Não faço ideia, não voltei a relê-lo. Mas duvido que ficasse minimamente contente. Não foi um conto, foi uma coisa que se fez para ali e que se enviou e nunca mais se pensou nisso nem nunca mais se vai pensar.

Também tens esse relacionamento com as crónicas e com os textos de crítica?

Raramente. Já fico satisfeito, vá, dois terços das vezes, mas há aqueles que eu sei que me saem mal. Mas atenção que isto não é como aquelas merdas das pessoas que acham que sai sempre tudo mal. Eu sei quais são os bons e quais são os maus. Sei perfeitamente. E já escrevi muitos textos maus. Ok, não muitos, mas alguns, já escrevi alguns textos bastante fraquinhos e já escrevi alguns textos com os quais fiquei bastante satisfeito.

Os textos que saem melhor são os que escreves com mais tempo ou aqueles à última da hora?

Regra geral, aqueles para os quais tenho mais tempo são os que me saem melhor. Espero que seja assim com toda a gente.

Não é.

Então faz isto depressa.

Isto foi preparado hoje de manhã.

Muito bem!

E porque é que escreveste um conto policial em jeito de piada ao policial?

Eu vou explicar todo o processo. O director da LER, João Pombeiro, telefonou-me um dia e disse-me: “Olha, estamos a preparar a edição do mês seguinte e há aqui umas coisas mais à volta dos policiais. Queres escrever um conto policial?” E eu disse: “Isso é uma ideia horrível. O que é que lhe passou pela cabeça?” “Vá lá.” “Está bem.” Juro-te que não foi muito diferente disto. Passados dois dias, quando comecei a pensar naquilo, obviamente fiz a coisa natural que uma pessoa na minha posição faria – liguei-lhe em pânico e disse-lhe: “Não posso fazer isto, isto é uma estupidez de todo o tamanho.” E ele disse: “Epá, não, vai correr tudo bem, não te preocupes, escreve aquilo que sabes e pronto.” E eu perguntei-lhe: “Posso ser parvo?” E ele disse-me que sim e foi isso que aconteceu. Escrevi um conto policial sendo parvo. E agora fora de brincadeiras, aquilo não é um conto policial, não é uma coisa muito interessante, acho eu, e não fiquei nada satisfeito e devias apagar toda esta merda. E vamos fingir que nunca nos conhecemos.

Referes algures no Pastoral Portuguesa uma coisa que é a maldição do crítico, o crítico ficar aprisionado. Acho que era a propósito do Wood, de ele se tornar conhecido por ter uma ideia e ficar aprisionado naquela ideia. Não sentes, em certa medida, uma maldição também, no sentido em que ficaste conhecido pelo teu estilo, que é um estilo…

Espera, já acabas. Não tendo 90% de certeza do que estou a dizer, acho que não me estava a referir ao Wood ter ficado refém da sua reputação pública, era refém de uma coisa que ele próprio criou. Não era a percepção pública sobre si próprio. É que as percepções que num crítico são necessariamente ad hoc, ou seja, vão sendo acumuladas de livro para livro, foram transformadas por ele numa sistemização que ficou demasiado rígida. Ou seja: “Isto é mau por causa disto, tudo aquilo que se pareça com isto vai ser mau.” Acho que a dada altura ele ficou refém dessa posição: “Este é o meu cavalo de batalha e daqui para a frente é isto que tenho de criticar.” Mas não me passa pela cabeça que ele esteja a querer desempenhar um papel.

Mas adaptando então o teu conceito: ficaste conhecido por esse estilo com humor, que era uma coisa que não se via muito. Não te sentiste de certa forma aprisionado, não sentiste que tinhas de ser fiel ao teu registo quando escreveste esse conto?

Não. Felizmente nenhuma dessas coisas me passou pela cabeça ou teria sido um processo ainda mais triste. A única pressão que senti foi ter de entregar aquilo em três dias depois de ter dito que sim. E a pressão foi toda, da primeira à última hora: “Isto foi uma péssima ideia.” O que é que eu pensei enquanto estava a escrever aquilo? Tinha lido uma coisa na New Yorker há pouco tempo e pensei: “Isto dava um conto policial giro.” Portanto quando fui confrontado com a necessidade – para comer, porque eu preciso de comer, eu precisava de fazer aquele trabalho – de escrever um conto policial, lembrei-me de fazer uma coisa a partir de um elemento que tinha lido ali. Depois foi saindo, sem nenhum pensamento prévio acerca daquilo que estava a fazer. Aquilo não correspondeu a nenhuma ideia que eu tenha de literatura, por amor de deus, zero. Aquilo foi só a única coisa que eu consegui fazer naquele espaço de tempo, naquele estado mental em que estava. Uma desgraça, uma desgraça completa.

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