A carreira 205 e outras coisas bonitas que acontecem no Porto: NOS Primavera Sound 2014

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Jeff Mangum criou uma banda sozinho, dentro da sua cabeça e da sua guitarra acústica, repetindo as canções até as decorar, sem escrever as letras num papel sequer. Essa banda chamava-se Neutral Milk Hotel e existiu primeiro em cassettes que Jeff e os amigos faziam circular entre si, das coisas que iam gravando em casa, sozinhos ou em grupo. Depois os Neutral Milk Hotel gravaram um disco, praticamente composto na íntegra por Jeff Mangum, com a colaboração de alguns músicos amigos. Foi em 1996 e o disco chamava-se On Avery Island. O impacto que teve junto dos seus amigos, e de muitas das pessoas a quem chegou, foi imenso. Qualquer coisa mágica estava a nascer.

O grupo de músicos que girava em torno de Jeff já tinha, por esta altura, arranjado um nome sob o qual se movia: Elephant 6. Não era uma editora, nem uma banda, era um colectivo de músicos que gravavam e tocavam individualmente ou em várias bandas, com muitos membros repetidos entre elas, davam concertos caóticos em que todos participavam e trocavam instrumentos e faziam barulho e deixavam toda a gente boquiaberta.

Dois anos depois daquele primeiro disco, sai o segundo – e derradeiro – disco de Neutral Milk Hotel. In the Aeroplane Over the Sea foi, também ele, maioritariamente composto por Jeff, mas com uma maior relevância de colaborações de amigos, nomeadamente aqueles que viriam a formar a banda propriamente dita, que se apresentava ao vivo: Julian Koster, Scott Spilane e Jeremy Barnes.

O álbum foi muito aclamado entre o colectivo, como se tivessem a noção de que estava ali a mais preciosa pedra da colecção, mas também fora deste. Chegou a muito mais gente e o culto em seu torno não parou de crescer – até aos dias de hoje, na verdade. Só que Jeff era um tipo especial, não estava feito para ser uma estrela rock. A reverência que algumas pessoas começaram a demonstrar para consigo deixava-o desconfortável. Jeff continuava a sentir-se um tipo normal que tinha escrito umas dezenas de canções. E por isso, com todo o alarido que foi surgindo e crescendo em torno dos Neutral Milk Hotel, Jeff desapareceu. Houve participações em concertos de amigos, tudo muito espaçado, mas na maior parte do tempo, ninguém sabia de Jeff nem o que andava a fazer nem se algum dia voltaríamos a ouvi-lo. Só em 2010 começa a aparecer novamente, sem pompa, dando pequenos concertos ocasionais. O bichinho deve ter pegado, porque em 2011 lançou uma box set de Neutral Milk Hotel, com os dois álbuns, os EPs e os singles, e começou a dar concertos em nome individual.

Quando foi anunciado que a cidade escolhida para receber o festival irmão do Primavera Sound de Barcelona tinha sido a cidade do Porto, a comunidade indie do país rejubilou. Mas este que vos escreve só entrou em histeria quando anunciaram o nome de Jeff Mangum para o cartaz. In the Aeroplane Over the Sea é o disco que mais ressoa cá dentro, ao ponto de não poder contar-vos o quanto, porque este texto se tornaria irremediavelmente lamechas e piroso. Mas imaginem o cenário: há uma banda, um disco em particular dessa banda, que é a coisa que faz mais sentido no mundo, a justificação final para existência de toda a música. Descobrem essa banda quando esta já não existe, já não grava, já não toca ao vivo, não nada. Ouvem aquele disco, e os outros, vezes e vezes sem conta. Choram com a beleza pura e única de algumas canções (isto são vocês a imaginar, não tem nada a ver com o que se passou comigo), não porque as relacionam com pessoas ou períodos da vossa vida, mas porque aquelas canções enquanto objecto artístico são perfeitas. Raramente, para não sofrer, imaginam como seria ter visto um concerto dessa banda. E um dia descobrem que o vocalista dessa banda vai tocar ao vosso país, num concerto a solo que estará recheado de canções desse disco que vocês colocaram num altar onde vão orar com muita frequência.

Não havia equações a fazer. O bilhete foi comprado, ignorando todas as dificuldades económicas por que passava, e por que continuaria a passar quando chegasse o dia de viajar para o Porto. Nada me impediria de ver ao vivo Jeff Mangum, de ouvir ao vivo “In the Aeroplane Over the Sea”, “Two Headed-Boy, part II” ou “Oh Comely”.

Nesse primeiro ano de Optimus Primavera Sound (agora NOS Primavera Sound), em 2012, o festival propriamente dito decorria de quinta a sábado. Mas o momento por mim mais aguardado chegaria só no domingo, com os concertos na Casa da Música de Jeff Mangum e dos Olivia Tremor Control (uma das bandas mais interessantes do colectivo Elephant 6). Sendo a Casa da Música um espaço necessariamente mais limitado do que o recinto do Primavera, era necessário reservar bilhetes para esses concertos no dia anterior, no recinto do festival. Depois de ponderar seriamente ir para lá acampar às 8 da manhã, decidi sensatamente aparecer só pela hora de almoço. Foi uma boa decisão, porque não estava assim tanta gente à espera. Só que chovia. Eu e um amigo de sofrimento encostados às grades enquanto a namorada dele nos fotografava, para mais tarde nos chingar (odeio pessoas que não amam Neutral Milk Hotel), com os hoodies a proteger da chuva e os rostos mal escondendo o nervosismo daquilo. “Não está assim tanta gente.” “Mas e se não conseguimos bilhete?”

Quando enfim abriram o recinto, as pessoas começaram a correr como se lá dentro houvesse uma Worten a fazer 50% de desconto em todos os produtos. Eu, que odeio histeria, não tive outro remédio senão correr, também, até chegar a uma fila já enorme – porque a primeira tentativa de entrar no recinto correu mal, via ter escolhido a fila errada, que parece que era só para mulheres, sexistas de merda – e começar a ver a minha toda a andar para trás. “Eu não paguei não sei quantas dezenas de euros para agora não ver o único gajo pelo qual paguei bilhete!” (Em boa verdade, não paguei mesmo. Fui um dos felizes contemplados com um bilhete extra. Havia 100 ou 500 em 5000, não me recordo, só sei que fui um dos contemplados.)

Acabou tudo bem. Consegui bilhete para Jeff Mangum e Olivia Tremor Control. O domingo seria um dia santo.

Nesse domingo, se bem me recordo, o Jeff tocou um primeiro concerto, depois tocaram os Olivia Tremor Control (com o Jeff a colaborar pelo menos numa canção) e depois outro concerto do Jeff (supostamente, cada pessoa só podia ver um dos dois, para dar oportunidade a mais gente de o ver). Eu escolhi o segundo e, portanto, comecei o aquecimento com os Olivia Tremor Control. Depois veio o Jeff, tocou uma música ou duas e disse que quem quisesse podia ir para perto dele. Hesitei. O que é que eu faço? Não curto estas merdas histéricas de ai-o-meu-artista-preferido, mas foda-se, era o Jeff Mangum! Quando é que teria outra oportunidade de estar ao pé do Jeff Mangum? Quando vejo uma amiga minha levantar-se e dizer “Vamos?” foi como se tivesse carregado no botão de ejectar de um aeroplano (over the sea) que me lançou em corrida para o palco. Ali fiquei, sentado, a escassos dois metros do Jeff, vendo-lhe a expressão do rosto a cada verso, ouvindo as canções que tantas vezes ouvira em casa, agora ao vivo. E em péssima qualidade sonora, visto estar no palco. Mas que importava isso quando estava a dois metros do Jeff? Esta experiência já ninguém me tira.

Regressei do Porto com o coração cheio. Algo que sempre achara que nunca iria acontecer tinha, afinal, acontecido: tinha visto o Jeff Mangum ao vivo, tinha ouvido as canções do In the Aeroplane Over the Sea ao vivo, sentado no palco a escassos metros daquele rapaz vulgar e extraordinário, comum e sobre-humano, um two headed-boy. O que eu estava longe de imaginar nessa altura era que dois anos depois, no mesmo festival, teria oportunidade de ver não apenas o Jeff de novo, mas a banda completa reunida.

Os Neutral Milk Hotel foram a primeira banda confirmada para o NOS Primavera Sound 2014 e – adivinharam – não foi preciso mais nada para me fazer correr a comprar bilhete. Malvada organização, outra vez a mexer assim com o meu músculo sensível. O efeito espera repetiu-se: bilhete comprado com meses de antecedência e o constante: “Nunca mais é Junho!” Desta vez consegui até arrastar o meu querido irmão, igualmente fã da melhor-banda-de-sempre, para não sofrer sozinho.

Estamos nós nas proximidades do grande dia, quando este que vos escreve arranja um emprego de merda, com péssimos horários e muito mal pago. E agora? Como é que vou arranjar maneira de conseguir os dias para ir ao Porto? Foi um drama, um horror, estive até à última semana a pensar que não iria poder ir, mas finalmente os astros conjugaram-se e conseguiram arranjar-me um esquema manhoso que implicava darem-me dispensa na sexta-feira do festival (sendo que teria de compensar essas 8 horas depois) e darem-me um horário na quinta-feira das 8h às 16h, que me permitia viajar para o Porto e chegar ainda a tempo de ver alguns concertos do primeiro dia (o sábado e o domingo já eram os meus dias de folga, pelo que não exigiam mais ginástica).

Dia 5 de Junho, quinta-feira e primeiro dia de NOS Primavera Sound 2014, começa comigo a acordar antes das sete da manhã, depois de ter saído do trabalho à meia-noite, no dia anterior e não ter consigo dormir até às 4 da manhã. Foram oito penosas horas de trabalho tentando repetir um mantra dentro da cabeça: vai valer a pena, vai valer a pena, vai valer a pena. Eventualmente o tempo passou: logout apressado às 16h, corrida para o metro de São Sebastião, linha azul até Santa Apolónia, onde o meu irmão já devia estar com os bilhetes do comboio na mão.

Chegados ao Porto, à estação de Campanhã, apanhámos um autocarro para o Parque da Cidade. Era o 205. Eu tinha visto na Internet que passava na Campanhã e no Parque da Cidade, portanto era ideal, certo? Foda-se. Não sei se havia alternativas mais eficientes, mas esta que escolhemos foi um martírio. Para quem não está familiarizado com esta carreira da STCP, para que tenham uma ideia, este foi o percurso que fizemos, em termos de paragens da carreira 205: Campanhã, Noeda, EDP, Freixo, Bonjóia, Lagarteiro, Bairro do Cerco do Porto, Pego Negro, Bernardim Ribeiro, S. Roque, Fábrica do Cobre, Vila Cova, Parque Nascente, Ranha, Rebordãos, Varziela, Rotunda da Areosa, Enxurreiras, Asprela, Hospital de S. João, IPO, S. Tomé, Amial, Capuchinhos, Via Norte, Monte Burgos, Congostas, Bairro Santo Eugénio, Quartel Militar, Alto do Viso, Rua do Senhor, Senhora da Penha, Ruela, Rotunda A.E.P., Preciosa, Azenha de Cima, Lidador, Quinta dos Ingleses, Real, Teatro Vilarinha, Parque da Cidade. Tirando alguns nomes divertidos e alguns passageiros castiços, esta viagem (que durou quase tanto como o Alfa Pendular Lisboa-Porto) não foi a melhor experiência que já tive no Porto.

O mais importante não é a meta, é o caminho, o caralho. Só queríamos ver anunciada a paragem Parque da Cidade. Tal era a ansiedade que quase a deixávamos passar. Mas correu tudo pelo melhor, saímos no sítio certo, caminhámos calmamente até ao recinto com o objectivo do dia cumprido: chegar a tempo de ver o Caetano Veloso. Sim, é certo que perdemos o Rodrigo Amarante, mas esse já estava perdido desde que soube que teria de trabalhar até às 16h desse primeiro dia.

Quando entrámos no recinto ainda estava a tocar a Sky Ferreira, o que não nos pareceu tão apelativo quanto ir beber cerveja, para esquecer as amarguras da carreira 205, e marcar lugar para o Caetano. O mestre brasileiro deu um “abraçaço” valente de boas-vindas e mostrou, sem espinhas, que “a bossa nova é foda”. Dá gosto ver um senhor assim, tão cheio de vida nas canções novas. Só foi pena que o momento nostálgico-choninhas tenha sido a “Leãozinho”, porque para haver um momento nostálgico-choninhas, e era imperativo que houvesse um momento nostálgico-choninhas, teria sido muito melhor a “Sozinho”. Todo o potencial romântico da coisa: casais a trocar olhares apaixonados e um beijo quente, desconhecidos a trocar olhares furtivos e a pensar num beijo, eu a trocar olhares melosos com o meu irmão. Perdeu-se uma bela oportunidade.

Terminado o Caetano, virámos para o palco do lado, onde fomos ter com uns amigos, entre os quais a melhor pessoa da Póvoa de Varzim, que nos iria albergar durante o festival. Conversámos e bebemos e fomos ouvindo as HAIM que já eram aborrecidos em disco (o meu irmão não achava) e o confirmaram ao vivo (o meu irmão concordou). É bonito ver as expectativas alcançadas.

Depois a animação voltava ao palco do lado, onde se preparava o concerto de Kendrick Lamar. O nosso anfitrião tinha de ir para casa, porque no dia seguinte era sexta-feira e tinha de ir trabalhar. Nós queríamos ver o Kendrick Lamar. Felizmente, estava nas redondezas outro amigo, a melhor pessoa de Ermesinde, que se ofereceu para nos levar à Póvoa mais tarde. Aceitámos de bom grado, porque não queríamos que a bitch do nosso anfitrião nos matasse a vibe. Do concerto de Kendrick Lamar pode dizer-se que o Kendrick Lamar adora chamar-se Kendrick Lamar, pelo menos a avaliar pelo número de vezes que Kendrick Lamar disse Kendrick Lamar, Kendrick Lamar, Kendrick Lamar. De resto, foi um concerto divertido, um momento meio alienígena no cartaz, que não impressionou por aí além. Se este rapaz é a grande esperança do hip-hop (mainstream) americano, estamos mal servidos.

A primeira noite de Primavera ficaria concluída com o concerto de Jagwar Ma. Acontece que no momento em que ia começar o concerto, começou também a chover. O concerto, imagino, realizou-se na mesma; a nossa presença é que não. Estava feito o primeiro dia de NPS 2014 para nós e tinha rendido pelo Caetano, conforme os prognósticos. E pela carreira 205, claro.

No dia seguinte, sexta-feira, acordámos sozinhos em casa, visto o nosso anfitrião e sua companheira estarem a trabalhar. Tínhamos, ainda assim, a companhia do Kadhafi e da Carlota, duas bolas de pêlo oferecidas que se deitavam de patinhas para o ar como quem insinua, com clara falta de subtileza, “faz-me festas na barriga, humano desconhecido que estás aqui à mão.” E nós acedemos, claro. Quando a fome deu sinal, como bons turistas, decidimos experimentar a gastronomia local: McDonald’s da Póvoa. Não nos julguem, sim? Somos pobres.

Depois caminhámos até ao fundo da avenida, até ao mar, para abater o almoço, e sentámo-nos ali a contemplar as vagas e o imenso infinito do horizonte, como um pequeno Fábio Coentrão a sonhar com o Real Madrid. Tanto potencial romântico nas Caxinas e a única companhia que tinha era a do meu irmão (que é bastante sexy, asseguro-vos, mas não faz bem o meu género).

Entretanto a hora de regressar ao Parque da Cidade aproximava-se e o nosso anfitrião nunca mais voltava do trabalho. Pesámos os prós e os contras e decidimos ir de metro até ao Porto e apanhar o 205 para o Parque da – estou a gozar. O nosso anfitrião chegou e queria ir ver Föllakzoid. Acontece que cometeu o erro de combinar a ida com a sua irmã, que se atrasou, e quando chegámos ao Parque da Cidade já estavam os Föllakzoid quase a terminar.

No palco Super Bock (um dos dois principais) estavam a tocar os Midlake, pelo que foi para lá que fomos. Um dos moços falava português, porque parece que tinha casado com uma portuguesa. O concerto, com muitas músicas de Antiphon, o disco que a banda lançou em 2013, foi bastante competente e agradável, mesmo para alguém que conhecia mal o trabalho da banda como eu. Não foi explosivo, nem vibrante, mas também não teve falhas a apontar. Teve o mérito de me deixar com vontade de ir para casa ouvir o Antiphon (ainda não o fiz, agora que penso nisso).

Depois de Midlake, as pessoas à minha volta começaram a dispersar. Cada um queria ver uma coisa e neste segundo dia já havia concertos nos quatro palcos. O meu irmão abandonou-me ainda antes do fim de Midlake, para ir ver os Television a tocarem o Marquee Moon no palco ATP. Eu fui espreitar as Warpaint no palco NOS. Fiz mal. Ainda aguentei uns vinte minutos, meia-hora, como quem espera que aquilo aqueça. A próxima é que vai ser. E depois não era. Fartei-me. Fui até ao ATP ouvir um pouco dos Television, encontrei mais amigos e depois há um hiato de tempo em que não sei o que fiz. Sei que não vi Television até ao fim, nem fui logo para Slowdive. Provavelmente fui só beber e encontrar-me com mais alguém (gastei sensivelmente 25€ em telemóvel à pala das pessoas que me estavam sempre a perguntar “Onde é que estás?”), talvez a rapariga que me tinha encomendado um exemplar do meu livro e que demorei mais de meia-hora a encontrar.

Certo é que só me lembro de às 21h e pouco estar de volta ao palco Super Bock para ver Slowdive. Os britânicos fizeram questão de começar a aquecer a noite como se exigia. Sem espalhafato ou aparato, a música passava toda a energia necessária. Foi um belíssimo concerto dos shoegazers de Souvlaki, um disco maravilhoso de 1994 (caramba, já tem 20 anos). E embora os Slowdive não o merecessem, tive de abandoná-los um pouco antes do fim, para marcar posição no palco ATP, onde às 22:30 começava o concerto mais aguardado do dia: Godspeed You! Black Emperor.

Descrever a banda canadiana como uma banda de post-rock é claramente redutor. Mas como descrever então? Para quê descrever, na verdade? O concerto começa com um drone grave a ecoar e a crescer de intensidade e aquilo arrasta-se durante minutos e minutos e minutos, a preparar o público para o que se iria passar. A verdade é que ninguém arredou pé, mesmo quem ia sem ter bem a certeza ao que ia. Depois a banda começa a entrar, a pegar nos instrumentos e a partir daí foram duas horas de hipnose sónica, ora encantatória e calma, ora violenta e arrebatadora, sem uma palavra pelo meio, nada que não fosse aquela música, tão perfeita para aquele palco, para aquela noite. Para mim, que nunca os tinha visto, foi só a confirmação (nada surpreendente) de que são a melhor e mais interessante banda do espectro do post-rock. Estava encontrado o melhor concerto do festival e desconfiei logo que não iria ser superado.

Passado o choque e concretizado com relativo sucesso o regresso à realidade, fomos jantar. Escolhemos a Tachadinha que era o mais rápido (uma vez que só tinha duas opções no menu: tachadinha no prato ou no pão; complicar para quê?). Depois da primeira ainda ficámos com fome e fomos à segunda. Tinham sido muitas horas sem comer, ok? Entretanto, estava o Trentemøller no palco Super Bock, o que não chegava para nos fazer esquecer a fome, pelo que tocou sem a nossa presença.

Aconchegados das necessidades, encaminhámo-nos novamente para a zona de acção: palco NOS, onde à 1:25 tocavam os escoceses Mogwai. Como Loop e Shellac (no palco ATP) e Darkside (no palco Pitchfork) coincidiam com Mogwai, foi necessário fazer escolhas. Mogwai ganhou. Também nunca tinha visto ao vivo e, caramba, a seguir a GY!BE, são a melhor banda de post-rock de sempre. Acontece, todavia, que tinha combinado com outra amiga, de Guimarães, que também me tinha encomendado um livro, encontrar-me com ela à porta da zona de imprensa. Acontece, ainda, que ela ainda estava a sair de Guimarães quando os Mogwai já estavam quase a começar. Naturalmente, as pessoas que estavam comigo cagaram para mim e foram andando. Eu teria feito o mesmo. (Odeio pessoas.) Mas com paciência de santo lá esperei pela vimaranense que comprou o livro e me fez companhia durante Mogwai. E Mogwai foi um concertão. Num estilo completamente diferente de GY!BE (daí, também, a dificuldade em colocar os canadianos neste saco), mais explosivo e mais rápido, mais eficaz, mais directo, mais facilmente apreensível pelo público (seja isso bom ou mau, ou nenhuma das duas). Não sei os nomes das músicas, nem vou agora ver à Internet para fingir que sei, mas houve lá umas que reconheci de várias audições caseiras e que soam estupidamente bem ao vivo (nomeadamente a belíssima “Auto rock” – lembrei-me sozinho). Estava aqui um sério candidato ao top 3.

No palco Pitchfork ainda havia o Todd Terje e o seu It’s Album Time!, exclamado e tudo, mas para nós já era bed time, pelo que recolhemos à Póvoa de Varzim de ouvidos e corações cheios de alguns belíssimos concertos. No dia seguinte, sábado, era já o fim. Parecia que ainda agora tinha começado.

Se bem estão lembrados do início deste texto (ahahaha, achar que alguém leu até aqui), o motivo pelo qual comprei bilhete foi o concerto de Neutral Milk Hotel. Estava guardado para o último dia, e muito bem, só que logo às oito da noite. Sendo que tínhamos marcado almoço em casa da mãe do nosso anfitrião (não sei se já repararam, mas eu fiz de propósito para não nomear ninguém, porque se não era uma chatice, ia ter de nomear imensa gente e depois ficava com medo de me esquecer de alguém e, vá lá, ninguém quer saber com quem estive – contudo tenho de abrir uma excepção para a mãe do nosso anfitrião, Dona Amália, a maior de sempre), e esse almoço se afigurava demorado, o nervoso miudinho começou a apoderar-se do meu ser, ou pelo menos da parte do meu ser que venera Jeff Mangum e os Neutral Milk Hotel.

Ciente desta urgência imperativa, o nosso anfitrião tinha tudo controlado. Almoçámos calma e deliciosamente, um maravilhoso arroz de cabidela (a besta do meu irmão não gosta, por isso comeu outra coisa), bem regado. E assim, confortáveis do salutar convívio familiar alheio, partimos depois rumo ao Parque da Cidade, a tempo de procurar o melhor lugar para ver Neutral Milk Hotel.

Lembram-se do amigo que aguardou comigo, no primeiro ano, encostados às grades, debaixo de chuva? Pareceu-me que seria bonito ver o concerto ao lado desse rapaz, que é o melhor adepto do Belenenses do mundo. Sítio do costume: vem ter comigo à entrada da press. E ele nada. O concerto quase a começar e ele: “Ainda estamos à procura de lugar para estacionar.” E eu a pensar: ai o caralho. (Odeio pessoas.) Entretanto já tinha entrado no recinto. Eu aliviado. Mas nunca mais aparecia. “Vim aqui comprar uma t-shirt.” A sério? Era mesmo imperativo comprares essa t-shirt agora, quando faltam 5 minutos para começar o concerto pelo qual chorámos meses a fio? Não és um verdadeiro fã! E depois aparece, como se nada fosse, como se não estivéssemos ainda na zona da press, a 2 minutos de começar o concerto. (Estou a brincar, amigo, continuo a gostar de ti.)

Fomos e encontrámos outros amigos do clube vamos-chorar-a-ouvir-Neutral-Milk-Hotel. Ficámos lá à frente. A banda entrou e pronto. Este é o momento em que deixo de saber o que escrever. Foi tão belo e mágico e fora deste mundo ouvir aquelas canções, com a banda completa, ali tão perto de nós e desta vez com melhor qualidade de som (já que não fui para o palco). Não sabia se ia chorar (admito, era uma possibilidade) ou não, mas isso não aconteceu. Foi outra coisa. Foi uma felicidade imensa, do princípio ao fim, as letras berradas em coro com o Jeff, os pulos e o pseudo-mosh-fofinho na parte II da “King of Carrot Flowers”. E depois, ou antes, não interessa, na “Oh Comely”, ou na “Two Headed-Boy part II”, ou noutra igualmente bela, não me lembro, uma amiga minha começou a chorar. Eu, que tinha estado com ela três ou quatro vezes e não tinha assim tanta confiança, vi-a chorar e foi como se as lágrimas de todos nós estivessem concentradas nela e aquilo foi tão bonito e tão especial que não pude senão abraçá-la.

Houve um momento em que tocaram uma canção que ninguém parecia conhecer e imensa gente perguntava para o lado: “Qual é esta? Será que estão a preparar material novo?” com os olhos brilhantes de esperança. Mas não. Era a “Ruby Bulbs” do EP Everything Is. O Jeff pediu várias vezes que não tirassem fotos nem gravassem. Alguns idiotas continuaram a não respeitar isso. E depois, demasiado depressa, o concerto terminou. Não durou para sempre, como devia. Terminou. E voltámos à realidade outra vez, com um dia de concertos ainda pela frente e aquele guardado na memória.

Houve uns quantos loucos dos meus amigos que ficaram nas grades a guardar lugar para The National. Eu, que os tinha visto há uns meses pela segunda vez, achei melhor ir ver o John Grant no palco ao lado. Embora o disco mais recente ainda não me tivesse entrado, o Queen of Denmark tinha-me soado tão bem que era motivo suficiente para querer ver o concerto. Surpreendendo-me de alguma forma, John Grant deu mesmo um grande concerto, com algumas das mais icónicas canções do seu, já referido, primeiro disco a solo, pós-The Czars, mas também, naturalmente, muitas do novo, que eu mal conhecia, e me deixaram com óptima impressão do senhor. Depois de Neutral Milk Hotel, soube bem ouvir algo inesperadamente tão bom, para não quebrar logo o ritmo da coisa.

E a seguir vinham os National. Portanto, a noite tinha tudo para continuar a ser maravilhosa. Só que não. Além de o som estar horrível e de eu ter ficado entalado no meio de vários bandos de espanhóis que não se calavam, a banda estava sem chama. Sim, o Matt saltou para a plateia e foi bonito ver o caos gerado por esse acto, mas em termos musicais foi muito fraquinho. O pior dos três concertos que já vi dos National (que continuam a ser a melhor banda do mundo, ainda assim) e a maior desilusão deste NOS Primavera Sound 2014. Bem fez o meu irmão, que desistiu a meio para ir ver o Charles Bradley. Eu aguentei e arrependi-me. (Matt, espero que vejas a minha resistência como prova do meu amor incondicional por ti.)

O meu irmão, depois do Bradley, foi ver a St. Vincent e eu queria ir ver Slint. Antes disso, fui buscar uma cerveja à zona de imprensa, onde encontrei a melhor pessoa de Ponte de Lima, que não tinha já o pleno domínio da sua capacidade psicomotora, mas nem por isso deixava de ser um tipo encantador. Fomos juntos para Slint, no palco ATP, onde encontrámos, como se tudo estivesse combinado, o restante gangue de melhores pessoas de várias localidades, entre os quais alguns dos melhores membros do melhor colectivo de DJs do mundo. Embora alguns destes palhacinhos estivessem mais numa de gozar do que ver o concerto, outros queriam ver e a coisa acabou equilibrada. Os Slint deram um belíssimo concerto, com efeitos semelhantes ao de GY!BE: hipnótico e arrastado, ora calmo, ora pesado, mas sem a intensidade dos canadianos. Ainda assim, serviu bem para limpar a alma da desilusão que os National me deram.

Nisto já eram quase duas da manhã e ainda não tinha jantado. A maioria do gangue de pessoas que estava comigo nessa altura também queria comer. Tudo para a zona da comida, até ficava bem, que era ali ao pé do palco Pitchfork, onde eu ainda não tinha ido, onde iam tocar os Cloud Nothings às 2:55. Aproveitámos esse interregno para recuperar energias, ignorando conscientemente os concertos de Ty Segall, !!! e Glasser (não, ainda espreitei um bocadinho do concerto dela, não me lembro bem quando).

Com as baterias repostas, provavelmente alcoolizados, lá fomos todos para Cloud Nothings. Meu deus, que forma perfeita de acabar o festival (sim, ainda houve Pional às quatro da manhã, mas não sei quem ficou para ver). Energia, descargas eléctricas, punk’s not dead, muito mosh e crowdsurfing e suor e tirar a roupa e dar tudo. Se a avaliação fosse feita só pelo divertimento, os Cloud Nothings teriam dado o melhor concerto do Primavera. Foram, isso sim, a melhor despedida, a melhor coisa que podia ter acontecido no final, para que saíssemos com a certeza de querermos voltar no próximo ano.

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