O Congresso Futurológico: Lem vs. Folman

Sim, é óbvio que o sustento imaginário nunca pode substituir o que é real.
Stanislaw Lem

Há uma anedota onde se conta que após morrer, um homem vê-se obrigado a escolher entre ir para o céu ou para o inferno. Ele pergunta se pode espreitar um pouco de cada um para poder decidir, e o desejo é-lhe concedido. No céu ele vê, a calma serôdia dos anjinhos, o aborrecido bucolismo campestre do ambiente, a musiquinha suave a anódina de elevador como eterna banda sonora. Mas no inferno a festa é rija, ruidosa e animada, como se tratasse de uma gigantesca noitada cheia de copos e gargalhadas onde toda a gente parece feliz, apenas com um pequeno senão: todas estão de pé com merda até aos joelhos. Bom, o homem não hesita muito, pois parece-lhe que a porcaria não parece ser tão má já que permite que mesmo assim as pessoas se divirtam – mal por mal, decide-se pelo Inferno. E claro que assim que lá chega e pede um copo ao balcão, ouve-se uma tremenda sirene de fábrica e a voz do Diabo anunciando:
– Mudança de turno! Todos de cabeça para baixo!

Recordei esta anedota muitas vezes ao ler o Congresso Futurológico, um livro de Stanislaw Lem publicado originalmente em 1971 e que em 1986 teve edição portuguesa na famosa colecção azul de Ficção Científica da Caminho, entretanto descontinuada e guilhotinada, pelo que só a encontrarão em alfarrabistas e bibliotecas. É que Tichy, o herói viajante de Lem, passa por uma experiência fundamental e semelhante quando, em fuga de uma série de revoltas, contra-revoltas e confusão geral que ocorre à superfície, dentro e fora do gigantesco Hotel na Costa Rica onde tudo se passa, se esconde e refugia no esgoto por debaixo do Hotel na companhia de jornalistas, outros académicos e secretárias da Playboy. Apesar da relativa protecção do sítio, Tichy e os companheiros não escapam aos efeitos das bombas governamentais, cheias de agentes alucinogénios dispersos pelo ar. Inevitavelmente exposto aos agentes químicos, Tichy e os companheiros alucinam repetidas vezes, vivendo situações incríveis, maravilhosas, loucas, terríveis, alucinadas, de toda a espécie. E de todas elas acorda sempre que mergulha nas imundas águas do esgoto.

O paralelismo, esta ideia de que só na porcaria acordamos para a realidade – ou a outro nível, que a realidade é o estar mergulhado em porcaria – e que isso é essencial e desejável, chega muito marginalmente ou mesmo nada ao filme que adaptou a obra, estreado agora nas salas de cinema entre nós com o nome de O Congresso. Aí, o esgoto é um mero pormenor onírico, que aparece numa única cena e de passagem, veiculado por belos desenhos mas constituindo-se como mero décor, e mesmo que o desejo de realidade exista, ele acaba traído no final do filme por razões sentimentais, ou seja, a heroína acaba por escolher voltar à alucinação. Confrontando livro e filme estamos claramente em mundos e situações muito distintas e com mundividências diferentes, senão mesmo irreconciliáveis. O mínimo que se pode dizer é que, quem for ver o filme não esteja à espera de ler o mesmo livro.

(clicar na imagem para ver o trailer de O Congresso)

Recordemos o enredo do filme. Temos uma actriz a quem é oferecido um último contrato: o estúdio pretende digitalizar-lhe a imagem, ficando para sempre com todos os direitos a ela inerentes. A actriz resiste mas rende-se (nunca percebendo nós bem porquê) e aceita assinar o contrato. Acompanhamo-la ao estúdio, onde um velho conhecido, um director artístico caído em desgraça (bem como o seu agente, um Harvey Keitel muito abaixo de anteriores prestações) orienta o processo de digitalização. A actriz é colocada numa redoma geodésica e tudo acaba. A seguir, seguimos a actriz 20 anos depois, num Porsche pelo deserto e a caminho da cidade de Abrahama, onde toda a gente vive em permanente alucinação induzida por substâncias químicas. A partir daí o filme entra em modo de animação. Assistimos então a muitos cenários psicadélicos, após o que a actriz volta a encontrar o director artístico que lhe confessa ter estado sempre por ela apaixonado. Envolvem-se romanticamente e ele acaba por revelar-lhe que estão a viver numa elaborada alucinação, que o mundo real é muito mau. A actriz, preocupada com o filho, de quem sabíamos ter uma doença que o tornaria cego, toma a droga que a leva a regressar à realidade-real de modo a poder procurá-lo. O momento do desvelar o que está por detrás do pano é poderoso, e a transição da animação para uma cidade em ruínas, onde todos estão andrajosos e pobres está bem conseguida. Mais: ainda existem os que vivem bem, em dirigíveis sobre a cidade, e é para lá que a actriz se dirige, acabando por descobrir o médico do filho, que lhe diz ter ele regressado ao mundo lá em baixo e, consequentemente, à realidade-alterada pelas drogas. Por fim, a actriz decide também ela optar pela mesma via para tentar encontrá-lo.

No livro é tudo diferente e bem estruturado. Começa num futuro algo próximo, com Ijon Tichy, um académico aventureiro (personagem de várias outras obras de Lem) a caminho de um congresso de futurologia na Costa Rica. A situação política e social no local não é das mais famosas, e a partir do momento em que Tichy se apercebe ter sido exposto involuntariamente a uma droga no quarto do hotel, tudo descamba rapidamente em bombas e revoluções. Não é plenamente claro quando é que assistimos à transição entre a realidade-real para uma realidade-alterada (por via química), mas há um momento-chave que servirá de âncora até ao fim do romance: ainda no hotel, começam os distúrbios, e alguém anuncia que o governo se prepara para fazer frente aos distúrbios lançando bombas alucinogénias… que rapidamente começam a explodir e a empestar o ar por todo o lado; Tichy, bem como alguns jornalistas e conferencistas, ainda conseguem pôr mãos numas máscaras de gás e refugiam-se nos esgotos por debaixo do Hotel; eventualmente, acabam por tirar as máscaras e a partir daí nada mais será confiável no restante da narrativa, se bem que será interessante. É aí no esgoto que Tichy se apercebe de uma verdade fundamental, uma e outra vez, repetidas vezes, até ao final da história, e que consiste na capacidade redentora do mergulho no esgoto. Só nas vezes em que ele mergulha no esgoto é que acorda e a realidade lhe surge tal-qual-é. Infelizmente, o ar continua durante muito tempo saturado de alucinogénios, pelo que entramos num samsara virtual de alucinação-mergulho facilmente compreensível. Numa das aventuras psicadélicas, Tichy leva um tiro na cabeça e é ressuscitado num corpo diferente, apenas para ser posto a dormir até ao ano de 2039. Quando acorda, está em Nova Iorque e o mundo inteiro está entregue a um regime político-economico-social que funciona a químicos. Quanto mais Tichy aprende sobre essa sociedade, mais descobre o quão diferente é do seu passado e completamente condicionada por drogas de toda a espécie. Eventualmente, e após a introdução do tema puramente dickiano da aparente impossibilidade de percepcionar a realidade-real (note-se que Lem foi um apreciador e defensor convicto de Philip K. Dick), Tichy toma uma droga que faz descer o emaranhado de véus sucessivos de alucinação quimicamente induzida, até que redentoramente regressa ao esgoto por debaixo do Hotel Hilton na Costa Rica e no presente. Há muita coisa importante na história e que não fica explicada aqui na mera súmula do enredo, mas digamos que há uma razão para o Congresso, é importante que existam futurologistas e que o narrador seja um deles. Tudo se prende à ideia de viagem ao futuro, de nos dar um panorama, um travelling através de uma possibilidade de um futuro que para além de induzido, é conduzido por toda a espécie de drogas que alteram não só a percepção como a própria identidade das pessoas – um tema que à época em que o livro foi escrito, 1971, se pode dizer ter sido um tema quente. Lem discorre largamente sobre o tema, sempre usando as boas técnicas da sátira e da especulação imaginativa.

Mais do que um personagem – ou menos, consoante a visão que cada um tenha do efeito – Tichy é um artifício narrativo. Nesta e noutras histórias, Tichy é sobretudo o espectador imbuído de senso comum, e por vezes mesmo de bom senso. Quando o filme o dispensa em prol de uma personagem que reclama o centro da história e com uma agenda própria, o enredo original deixa de fazer sentido, tornando-se inóquo, por muito que o realizador (e argumentista) Ari Folman tente o contrário – e eu não sei até que ponto ele realmente o tentará: de acordo com uma entrevista, a ideia do filme ocorreu-lhe após o encontro ocasional com uma velha actriz que, nas suas palavras “antes fora considerada uma deusa”. Um dos problemas da sátira enquanto género artístico é o de que as pessoas a ela expostas perdem-se, a mais das vezes, de certos pormenores essenciais e acabam a elaborar construtos similares que mesmo quando se aproximam do original, de alguma fundamental forma falham em fazê-lo e a mensagem transforma-se.

Nada tenho contra a narrativa e história do filme O Congresso. O filme é engraçado, se bem que fraquinho e algo anacrónico. Baseia-se num enredo completamente diferente da obra que supostamente adapta, mesmo que a um nível muito básico ou muito macro haja uma estrutura algo similar. O uso que Folman faz do livro de Lem é mais inspirativo que criativo, ou seja, o livro alimenta muitas das cenas e espírito do filme, mas é um bicho completamente diferente o que provoca um esvaziamento da adaptação. A um outro nível, não consigo compreender a necessidade de ir buscar esta obra de Lem para suportar mais uma história estafada sobre uma actriz em fim de carreira e por mais exegese que se faça, não conseguimos ultrapassar a sensação de que houve uma mera vontade de pintar um futuro psicadélico (e talvez, vagamente, falar da indústria cinematográfica). Ou isso ou uma outra hipótese muito mais hollywoodesca, que não se esperaria de um realizador israelita pseudo-independente mas que pessoalmente faz-me muito mais sentido: que no início houve o livro e que na tentativa de adaptar uma história dos anos 70 ao mundo actual, algo de fundamental se perdeu na tradução.

Uma actriz famosa em declínio e que cede em absoluto os direitos da sua imagem, parece um tema actual, ou pelo menos relevante, mas depressa revelam-se sub-temas que não interessam ao realizador, pois não são explorados a não ser marginal e sucintamente, para além de já o terem sido em filmes muito melhores, tanto a nível de actores reais como de animação ou mesmo híbridos. O tema de uma realidade condicionada pelo uso de químicos também já não faz tanto sentido como nos anos 60 e 70 do século passado. Pode haver um paralelismo entre realidade-virtual e realidade-alterada quimicamente, mas o filme separa-a, anula-a e no fundo não a explora, antes a misturando de forma algo canhestra, o que resulta numa execução deficiente, por muito bonito que pareça.

De facto, a pergunta mais singela e destrutiva que se pode fazer ao filme é: que Congresso? Onde é que ele está? Para que serve? Qual o seu lugar no enredo, na história da actriz? Que importância tem que nos justifique o título e a ancoragem numa obra literária tão substancialmente diferente? As respostas são ou inexistentes ou muito fraquinhas. E quando ao “grande tema” da sociedade controlada por drogas? Nunca se questiona quem controla e porquê, ou sequer o como, tudo grandes temas desenvolvidos no livro e que no filme soçobram perante a redutora abordagem de subsumir a sua importância à busca de Robin pelo filho.

Acho curioso que haja declarações do realizador em que ficamos a saber que a família de Lem ficou muito satisfeita com o filme e que o achou muito fiel ao espírito do livro. Pessoalmente, não encontrei o espírito do livro no filme. Pelo contrário, encontrei uma mundividência absolutamente oposta (a de que pode ser preferível e legítimo viver numa simulação da realidade). É verdade que uma adaptação fiel à letra do livro seria interessante (senão mesmo mais animada e divertida – afinal trata-se de um livro cheio de bom humor), mas reconheço que financeiramente seria um pesadelo. O uso de técnicas de animação resolveria esse problema, mas a animação é aqui usada como delírio onírico, mais como detalhe que suporte do enredo (a não ser no mais básico, uma boçal equalização entre animação e realidade-alterada). O facto de o tipo de desenhos ser reminiscente de outros desenhadores e épocas – é impossível não recordar o Steamboat Willy do Disney ou o Yellow Submarine dos Beatles, só para dar dois exemplos – só acentua o anacronismo e falta de originalidade relevante. O filme apesar de vistoso, acaba por perder muito no significado.

Dito isto tudo, até parece que não gostei do filme. Não é verdade. Foram duas horas bem passadas e a verdade é que uma pessoa se vê obrigada a questionar posteriormente os elementos do filme, pois o normal é sair do filme como se tivéssemos assistido à trip marada de alguém e sentimo-nos obrigados a extrair um maior sentido ao que vimos. Porém, o problema está aí, no questionar e nas respostas. Pelo menos em confronto com o original que ele supostamente adapta, o resultado é menos bom. Quanto ao que o filme significa por si, cada um retirará as suas conclusões. Por mim, e tal como Tichy, quando mais penso sobre o filme mais tenho vontade de me atirar ao esgoto, a ver se acordo. E isso não é uma coisa assim tão má.
______________________________________________________

Uma última nota:
Nascido em 1921, Stanislaw Lem foi um escritor polaco que viveu a ocupação nazi, o regime comunista, as lutas do Solidariedade e a integração na União europeia, acabando por falecer em 2006. Em 2010, a Grã-Bretanha celebrou o Ano da Polónia, com mais de 200 eventos promovendo a cultura polaca. Talvez o mais importante desses eventos tenha sido a exposição “Star City”, que abriu com um congresso que pretendeu explorar os limites teóricos da própria exposição: designou-se, não por acaso, O Congresso Futorológico.

 

_ n. fonseca

Anúncios

One comment

  1. Pingback: Um Cronenberg requentado | ORGIA literária

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s