Passing shots e tradução

Chamem-me pretensioso, se quiserem, mas o que vos vou contar não é um capricho, é uma necessidade que surge de uma incapacidade. Vou escrever no Ípsilon sobre Open, a autobiografia de Andre Agassi (sim, o tenista). Antes de ter em mãos a edição portuguesa, da Cavalo de Ferro, tinha começado a ler o original, em versão ebook. Quando recebi a tradução, mudei para essa. Afinal de contas, se vou escrever sobre a edição portuguesa, convinha-me ler a edição portuguesa.
O que aconteceu foi que o livro começou a fazer-me comichão, uma comichão desagradável que me levava a não me aproximar dele tantas vezes quanto devia. Andava neste vai, não vai, lia um capítulo e pousava, pegava-lhe só no dia seguinte, ou no outro, e aquilo não estava a ir a lado nenhum. O entusiasmo que sentira ao início estava a desvanecer-se e eu não estava a gostar da sensação.

Um dia em que não me dava particular jeito andar carregar com o calhamaço, levei comigo só o leitor de ebooks e, a certa altura, retomei a leitura do texto na sua língua original. Foi incrível. Como uma sequência de passing shots inalcançáveis, as páginas sucediam-se para meu deleite, umas atrás das outras, e eu era humilhado por aquele prodígio do ténis que já não conseguia largar.

Desde esse dia, pousei carinhosamente a edição portuguesa deste Open e retomei em bom ritmo a leitura do original. Percebi que me é muito difícil, às vezes impossível, ler traduções do inglês. Sobretudo nestes tipo de escrita, mais descontraída, mais próxima da oralidade, é muito difícil verter aquilo para a nossa língua sem uma sensação de estranheza. A coisa não funciona. Aquilo que em inglês soa natural, em português soa artificial, forçado, por vezes ridículo. Isto, repito, não sou eu a ser pretensioso. Eu vejo-me forçado a ler em inglês porque é a única forma que encontro de apreciar este e outros livros.

Não estou, sequer, a dizer que a tradução é má. Não é isso que está em causa. É, apenas, uma tradução difícil, o que é divertido se tivermos em conta que o livro, em inglês, é facílimo de ler, sem quaisquer pretensões literárias além da de contar uma boa história. E às vezes é isso que torna as traduções mais difíceis; porque as frases complexas podem traduzir-se na complexidade da nossa língua e a situação passa. Mas as frases simples, o discurso cru e directo, a linguagem despida de ornamentos, é uma coisa muito mais difícil de traduzir, porque há uma ténue separação entre cair numa oralidade artificial, em traduções mais literais, ou numa oralidade parola, quando se tentam ir buscar expressões portuguesas que se equiparem aos tiques de linguagem do inglês.

Esse equilíbrio perfeito é tão raro que não consigo lembrar-me de nenhum exemplo bem sucedido. Não sendo, também, o caso deste Open, não me restou outra saída que não terminar a leitura na língua original. E para me libertar de qualquer injustiça que pudesse vir a cometer, o meu texto no Ípsilon não terá referências à tradução. É errado? Porventura. A referência que aparecerá é a da edição portuguesa. Mas se eu não escrevesse aqui esta nota, quem saberia? Façam de conta que não leram nada, se faz favor.

 

_ Gonçalo Mira

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