Escrita criativa: dúvidas sobre uma disciplina

Aquilo que sinto em relação à escrita criativa enquanto disciplina é ambíguo e tem variado ao longo dos últimos anos. Durante uma fase, defendi não apenas a legitimidade de tal disciplina, como a urgência da sua propagação. Na base da minha argumentação estavam as outras artes: há aulas de pintura, aulas de música, aulas de cinema, etc. O que é que teria a arte da escrita de tão divino que impedia que houvesse uma licenciatura em escrita?

Entretanto, e já há algum tempo, fiz um workshop de escrita criativa e outro de escrita para teatro, li dois ou três livros de escrita criativa (para um deles fiz, inclusive, todos os exercícios propostos) e li muita coisa pela Internet sobre o assunto, desde listas de 10 truques para ser escritor a ensaios sobre o tema e a forma como é ensinado e os problemas que apresenta. Não quero com isto dizer que sou um especialista na matéria — que não sou —, mas antes que, quanto mais leio e sei sobre o assunto, mais difícil me é ter uma opinião sobre ele. Um dos factores para a minha confusão é (e talvez pudesse solucionar isto com um pouco de investigação) não saber muito bem como são as aulas de pintura, de música ou de cinema. E, na verdade, não saber também como são as aulas de escrita criativa, aquelas a sério, que formam um curso universitário.

Nos livros que li, o que me desiludiu mais foi a noção de fórmula. Embora nunca utilizassem este termo, todos defendiam mais ou menos a mesma fórmula, com muito poucas variantes. Abriam sempre um aparte para ressalvar que as coisas se podiam fazer de outro modo, claro, mas os exercícios pressupunham sempre o adoptar daquela fórmula, que detalha como fazer tudo, desde o enredo à escolha do ponto de vista e à caracterização das personagens. E eu fiz os exercícios, sem saber muito bem se estava a cumprir o exigido porque o livro não me lia, nem comentava o que eu fazia. Acontece que, embora muitas dessas noções e desses truques tenham ficado na minha memória (outros desapareceram, que a minha memória é fraca), quando estou a ler ficção raramente penso no esqueleto do texto, raramente me dou conta de que o autor utilizou ali uma ferramenta que é referida nos livros de escrita criativa. O mesmo sucede quando escrevo ficção: não tenho a mínima noção de estar a utilizar seja que regras forem. Não tento, nunca, pôr as coisas no sítio certo. Não penso, sequer, se estou a utilizar um adjectivo ou um advérbio de modo desnecessário.

Já ouvi um argumento contra as aulas de escrita criativa que dizia que eram desnecessárias porque toda a gente aprende a escrever na escola. Embora na altura me tenha insurgido contra esta opinião, hoje tenho dúvidas se não terá um certo grau de razão. Sim, a maioria dos alunos chega ao 12.º ano sem saber escrever português correctamente, mas isso é uma questão diferente, de educação. Provavelmente, esses mesmos alunos chegariam ao 12.º ano sem saber juntar três ou quatro acordes se tivessem aulas de música desde a primeira classe. É tudo hipotético. Mas os alunos que chegam ao 12.º ano a saber escrever português e que gostam da língua e que gostam de a escrever e que gostam de ler, ganham alguma coisa em ter uma licenciatura em escrita criativa? É para isto que não tenho resposta e gostava de ter.

No fundo, há sempre uma percentagem fundamental de génio e talento nas pessoas que se destacam na arte. A propensão para o génio, para a criatividade, na minha opinião também se pode desenvolver, mas tem de ser desde tenra idade (e qual é a fórmula? não faço ideia). No fundo, todos nós podemos aprender a tocar mais ou menos bem uma canção dos Nirvana na guitarra, todos nós podemos aprender a pintar mais ou menos bem uma natureza morta, todos nós podemos aprender a escrever mais ou menos bem uma ficção; mas sem as bases, que vêm de toda a nossa educação, nunca passaremos de executantes medianos.

O que me deixa de costas voltadas para a escrita criativa enquanto disciplina é o facto de a achar fechada, simplista e muito mais focada na parte da “escrita” do que na parte “criativa.” O livro que estou a ler, e que despoletou este texto, desrespeita provavelmente todas as regras dos cursos de escrita criativa. É uma verborreia incessante, cheia de adjectivos e frases compostas, inundadas de apartes e parêntesis, em que cada parágrafo ocupa, mais coisa menos coisa, 30 páginas, e cada frase entre 5 a 15 linhas. E, no entanto, é genial, é fluido, é escorreito, é fácil de ler e difícil de largar. Porque a escrita serve o ambiente e a história que é contada. Esta é, para mim, a regra mais importante e aquela que almejo seguir (não é fácil): que a escrita esteja em tal simbiose com o que é contado, que não se possa imaginar aquela história contada de outra forma. É isto que faz László Krasnahorkai no livro de que falei, The Melancholy of Resistence. (Não há nenhum livro de Krasnahorkai traduzido em português. É húngaro e autor de Sátántangó que, tal como este que estou a ler, foi adaptado ao cinema por Béla Tarr. O escritor participou no desenvolvimento dos guiões cinematográficos, não apenas destes mas também de outros filmes do realizador húngaro.)

_ Gonçalo Mira

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