A novidade das notícias

Ontem, já depois de ter decidido o tema para a minha crónica de hoje[1], aconteceu uma coisa perfeitamente natural e totalmente inesperada. Na verdade, a ordem pela qual senti a ocorrência foi inversa: primeiro senti a surpresa, o inesperado da coisa, e só depois me dei conta de que havia um elemento de estranheza na minha reacção, porque aquilo que tinha acontecido deveria ser normal, banal, tudo o que seja contrário a inesperado e surpreendente.

Eram 19 horas e eu saía do escritório. Passei pela papelaria onde entregam o Público que o meu departamento assina (nunca soube porque o entregam ali e não no escritório). Raramente o vou buscar em dias que não sejam sexta-feira (quando sai o Ípsilon), porque raramente tenho vontade de ler notícias. Trago-o apenas quando vou à papelaria comprar outra coisa qualquer. Foi isso que aconteceu ontem: passei para comprar tabaco e aproveitei para trazer o jornal. O que faço ao jornal é invariavelmente isto: leio os títulos da primeira página, leio os títulos da última página, folheio rapidamente o interior e, não havendo nada que me apeteça ler e/ou guardar, abandono-o num local em que outra pessoa possa pegar nele e dar-lhe mais uso do que eu. O que aconteceu ontem, o tal evento inesperado mas banal, foi o seguinte: li os títulos da primeira página, virei o jornal e deparo-me, na última página, com uma notícia. Digo mais: uma notícia cultural!

Eram 19 horas. Aquela edição do jornal terá fechado algures na noite / madrugada de segunda-feira. E às 19 horas de terça-feira leio uma notícia no jornal de que não tinha conhecimento. Isto deixou-me abananado. Como assim morreu o Patrice Chéreau[2] e ninguém me avisou? Muitas horas tinham passado desde que a notícia fora publicada no site do Público, às 20:18h de segunda-feira, e eu continuava sem saber de nada[3] àquela hora. Foi uma surpresa e um choque que me deixaram a pensar no assunto.

Com a massificação da utilização da Internet, feeds de notícias, redes sociais, blogues, etc., habituámo-nos a saber das coisas em tempo real, no momento em que acontecem ou em que chegam ao mundo. Aliás, o (meu) estado de passividade é tal, que não sinto já necessidade de abrir sites de notícias portugueses. O Facebook substitui isso porque 1) a maioria dos meus amigos são pessoas com interesses culturais, que partilham as notícias relevantes da área; 2) as mesmas pessoas ou outras partilham também as notícias não culturais mais relevantes do dia. Não são sempre os mesmos, não são sempre as mesmas notícias, mas entre todos os “amigos”, achava eu, conseguia saber de tudo o que me pudesse interessar, sem um grande atraso em relação ao acontecimento. Ontem isso não aconteceu. Quando às 19 horas, na última página do Público, soube da morte de Patrice Chéreau, senti-me traído, senti que os meus “amigos” não tinham cumprido o seu papel. Logo, estavam em falta para comigo, para com o mundo.

Depois deste choque, desta prova de que as redes sociais enquanto fonte de informação são falíveis, dei por mim a debater-me com um outro sentimento: por que raio é que me parecia tão espantoso ter conhecimento de uma notícia através de um jornal? Daí à morte da imprensa foi um pulinho. Eu não sou, como já disse, uma daquelas pessoas que abre os sites dos jornais e lê algumas notícias pela manhã, ou que liga a televisão para ver o telejornal, ou que ouve as notícias na rádio. (Parte do que acabo de afirmar é mentira: para grande vergonha minha e grande desilusão de quem tinha alguma consideração pela minha pessoa, todas as manhãs, religiosamente, abro os sites de todos os três diários desportivos portugueses.) E mesmo assim não sou, quase nunca, surpreendido por uma notícia num jornal impresso. Quase sempre, as notícias que lá vêm eram já do meu conhecimento. Mas há pessoas que consultam as páginas web dos jornais, lêem as notícias. E compram os jornais? Sem querer parecer preconceituoso, acredito que as pessoas que consultam mais jornais online são as que consultam os sites de jornais como o Público, o Diário de Notícias, ou o Expresso. Os leitores do Correio da Manhã, parece-me, são pessoas menos tecnológicas, menos “sofisticadas”. Daí eu achar que os jornais verdadeiramente ameaçados são os ditos mais sérios. Porque, bem vistas as coisas, não oferecem nada que não seja possível encontrar online. O Correio da Manhã publica muitas daquelas notícias locais, de crimes e polémicas e afins, que não são assuntos de telejornal e que, por isso, as pessoas ainda procuram nesse jornal.

Já se debateu muito, na sociedade civil, seja isso o que for, até que ponto é legítimo tanto trabalho jornalístico estar disponível gratuitamente na Internet. É uma questão para a qual não tenho respostas; mas parece-me que para os jornais em papel, a única solução de sobrevivência é produzirem conteúdo que as pessoas não vão ler na Internet. Isso, sugiro, são reportagens de fundo. Mas posso estar redondamente enganado. Por outro lado, a notícia mais curta, mais directa, não deixa de ser necessária. É tudo um grande berbicacho. É muito bonito pensarmos na democratização da informação, no conhecimento gratuito e acessível a todos, mas há problemas que se apresentam. Ou as notícias são produzidas por profissionais, que garantam um padrão de qualidade, e que por isso precisam de ser pagos — logo, os órgãos de comunicação que os empregam têm de ter rendimento para lhes pagar —, ou as notícias passam a ser produzidas pelo cidadão comum, relegando a tarefa de filtragem do que é credível e profissional ao cidadão comum leitor. (Apesar de a minha frase apresentar duas alternativas, acredito que haja muitas outras.) Seja qual for o caminho, será necessária muita criatividade para tornar exequível o plano de sobrevivência.

 

[1] Ia ser sobre Enrique Vila-Matas. É improvável, mas se amanhã o escritor espanhol ganhar o Nobel vou arrepender-me muito de ter mudado de tema.

[2] Uma vez que esta crónica é sobre notícias e jornais, remeto para nota de rodapé umas breves linhas sobre Patrice Chéreau, realizador e encenador francês. Nascido em 1944, realizou pouco mais de dez filmes, dos quais só vi um. Todavia, Gabrielle (2005), o único que vi, foi suficiente para colocar Chéreau na lista de artistas que admiro e cuja obra quero conhecer melhor, muito melhor. Gabrielle é a adaptação de uma novela do escritor Joseph Conrad, “O Regresso”, incluída no volume Histórias Inquietas, editado em Portugal pela Assírio & Alvim. É, provavelmente, a melhor adaptação de uma obra literária ao cinema que já vi. Expliquei já porquê num texto publicado na Orgia Literária, influenciado pelas aulas de Cinema e Literatura na Faculdade de Letras, onde descobri estas obras. Não se pense, contudo, que a minha opinião é condicionada por essas mesmas aulas, pelos pormenores evidenciados pelo professor (e poeta) Fernando Guerreiro. Este não foi o único par de obra literária / adaptação cinematográfica que analisámos e nenhum outro atingia os patamares que este atinge. Por isso, tendo visto apenas um filme de Chéreau, a notícia da sua morte deixou-me triste; e por isso me senti traído por ninguém ma ter comunicado mais cedo.

[3] Por falar em não saber nada: o Facebook é, de facto, um mundo estranho. Os seus algoritmos regem-se por leis que não compreendo. Quem administra uma página de Facebook (não um perfil pessoal), como a página da Orgia Literária, sabe que pode ver o alcance das coisas que lá partilha, a quantas pessoas chega cada publicação. Acontece que fiz uma publicação que não chegou sequer a 100 pessoas (muito abaixo do nosso normal alcance); motivo pelo qual aproveito esta péssima desculpa para divulgar novamente o assunto: o site The Art Boulevard fez-me algumas perguntas sobre a Orgia Literária e eu respondi. Podem ler a entrevista aqui. Perdoem-me aqueles para quem esta informação é redundante.

_ Gonçalo Mira

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