O encerramento da Sá da Costa e uma análise pessoal ao negócio dos livros

Excluindo as pessoas que compram os best-sellers e os livros da moda — que são pessoas que compram um livro quando acabaram de ler outro, mas que são muitas, que são a maioria, que são quem compra livros em hipermercados e na Fnac e na Bertrand —, quem nos resta? Restam as pessoas que compram a dita literatura séria, que são muitas vezes leitores compulsivos, compradores compulsivos, pessoas cujo interesse na literatura se estende para lá de uma história que entretenha. Estes leitores, das três uma: ou têm muito dinheiro, ou têm pouco dinheiro ou estão ali pelo meio.

Os que têm muito dinheiro, se tiverem um lado coleccionista, se gostarem de coisas mais obscuras, podem ir uma vez por mês a uma livraria tradicional, de preferência também alfarrabista, e largar uma centena ou duas de euros. Ora, estas pessoas são muito poucas e as livrarias deste tipo, por muito que isto custe aos aficionados engolir, eram demasiadas. Não demasiadas para nós, claro, porque nós, leitores compulsivos, queríamos uma cidade forrada a livrarias; mas demasiadas para os seus clientes. Isto porque de entre os leitores compulsivos com muito dinheiro, há muitos que se contentam perfeitamente com as novidades. E vão uma vez por mês à Fnac ou à Bertrand e largam a mesma centena de euros em novidades. Isto não é condenável por aí além: é fácil. Os livros estão bem visíveis, nem sequer têm de ir à estante porque de entre as mesas de destaques e novidades facilmente seleccionam duzentos euros de livros só do último mês e só de literatura potencialmente de qualidade. Ou seja, dos leitores com muito dinheiro, aqueles que vão a livrarias independentes são a clara minoria. São uma minoria, de uma minoria, de uma minoria.

Os leitores compulsivos que têm pouco dinheiro são pessoas que sofrem. Já fui uma dessas pessoas, sei como é (estou um pouco melhor, obrigado, mas ainda não entrei na categoria dos que têm muito dinheiro). A solução para estas pessoas é comprar livros o mais baratos possível. Isto consegue-se comprando livros usados, que não sejam raridades. A oferta deste tipo de compra é o que falta a muitas das livrarias tradicionais. Fazem-se boas compras, é verdade, em alguns alfarrabistas de Lisboa, mas não deixa de ser revelador que as melhores compras se façam, muitas vezes, na Internet e em feiras de velharias, como a Feira da Ladra. Facilmente compramos livros de grandes autores, obras-primas da literatura, a cinquenta cêntimos e um euro. Nenhum comedor de livros morre à fome. O que é que uma livraria tradicional ganharia em ter livros a este preço? Nesses livros, quase nada. Uma ninharia. Uns cinquenta cêntimos de lucro. Mas ganharia noutro aspecto. Porque os leitores atraídos por estas pechinchas, se forem compulsivos, facilmente são tentados por outras compras menos baratas. E voltam e contam aos amigos. Não estou, de modo nenhum, a afirmar que esta é a solução para a sobrevivência das livrarias. Não tenho qualquer sustentação para o dizer. Acredito, todavia, que traria um maior fluxo de clientes. Não são os eventos que atraem compradores, são os livros. Os eventos atraem pessoas que gostam de ir a eventos. E os eventos gratuitos atraem pessoas que gostam de coisas gratuitas. Para atrair compradores de livros têm de ter uma boa oferta de livros. E a única coisa que chama mais clientes do que um letreiro a dizer “Livros a 1€” é um letreiro a dizer “Livros a 50 cêntimos” (já nem vou falar, porque são realidades diferentes, de alfarrabistas norte-americanos com caixotes de livros grátis — até porque li isto num livro de ficção, não faço ideia se existe na realidade).

Os leitores que estão entre ter pouco e muito dinheiro, os remediados, espalham-se um pouco pelas duas áreas. Se querem mesmo uma novidade, vão à Fnac ou à Bertrand, porque é mais fácil encontrá-las lá (provavelmente por culpa das editoras, que os enviam primeiro para estas cadeias). Isto quando acabaram de receber. A partir daí começam a gerir o vício da forma possível, procurando as pechinchas. Perguntar-me-ão: e os livros que não são novidades, mas queremos muito e não encontramos em feiras e alfarrabistas? Ou se compram nas grandes cadeias, se lá estiverem, ou se aguarda que apareçam usados algures. Mais uma vez, esta teoria é pessoal e de modo nenhum fundamentada: o mercado dos livros de bolso em língua inglesa, espanhola e francesa (que são os exemplos que conheço) é uma resposta a isso. Se há um livro novo que as pessoas querem mesmo, mesmo ler, mas saiu há um mês ou dois, as pessoas largam a nota para o ter. Se é um livro que saiu há dois anos e a pessoa quer mesmo lê-lo, já lhe custa largar a nota. Já tem dois anos. Ora, é para isso que existe a versão de bolso, porque já o podemos comprar por um preço acessível. Em Portugal o livro de bolso não tem qualquer estratégia. Dir-me-ão que o mercado é pequeno e diferente dos exemplos que citei. É verdade. Mas isso não é impeditivo a uma estratégia de livro de bolso.

A minha tese é esta: quem compra livros novos, sejam eles recentes ou nem por isso, fá-lo na Fnac ou na Bertrand. Irá, eventualmente, a uma livraria independente se aquelas duas já não tiverem o livro (como acontece frequentemente para livros menos recentes). A Galileu, em Cascais, aguenta-se porque está em Cascais e tem clientes ricos. Em Lisboa, com a oferta que há, creio que as livrarias independentes têm de apostar nos clientes pobres e remediados; porque os ricos, salvo a ínfima minoria dos ricos apaixonados pelos livros e que não apreciam por aí além as novidades, os outros ricos, dizia, os menos criteriosos, esses já vocês os perderam. E é irreversível.

Só a título de curiosidade, ontem comprei cinco livros:

Aparição, de Vergílio Ferreira.
Finisterra, de Carlos de Oliveira.
Rashomon e Outras Histórias, de Ryunosuke Akutagawa.
O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse.
A Angústia da Influência, de Harold Bloom.

Custaram-me, na totalidade, 17€. Dezassete. Se os tivesse comprado novos, ter-me-iam custado 76,70€ (preços da Wook, alguns inclusive com 10% de desconto). Setenta e seis e setenta. Ora eu, que sou um comprador remediado, prefiro comprar cinco livros a um. E reparem que aqueles cinco livros me custaram menos do que o preço de capa do Jogo das Contas de Vidro.

Este texto, como os mais atentos às notícias terão adivinhado, surge na sequência da notícia do encerramento da livraria Sá da Costa. Concluo dizendo apenas que a democratização da leitura trouxe mais compradores de livros, mas são aqueles que vêem o livro como mais um produto de entretenimento. O mercado mudou e não vai des-mudar tão cedo (ou nunca) — grupos editoriais, cadeias livreiras, livros em hipermercados e estações de correio e bombas de gasolina, rendas mais altas, etc. A Sá da Costa foi apenas mais uma. Outras se seguirão. É inevitável. Triste, mas inevitável.

_ Gonçalo Mira

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s