Dez anos sem Bolaño

Faz hoje dez anos que morreu Roberto Bolaño, escritor chileno, mexicano, espanhol, latino-americano. Tinha 50 anos e estava na lista de espera para um transplante de fígado quando, na madrugada de 15 de Julho de 2003, o corpo não conseguiu esperar mais.

Como a maioria dos portugueses, descobri Bolaño em 2009, quando por cá se publicou 2666, a sua magistral obra póstuma. Estava, no entanto, já publicado em Portugal, com Nocturno Chileno, Os Detectives Selvagens e Estrela Distante. Bolaño foi, pois, mais um exemplo da importância do marketing para o sucesso de uma obra. Só isso explica que Os Detectives Selvagens tenha passado praticamente despercebido e 2666, nas suas mais de mil páginas, tenha chegado aos tops de vendas nacionais.

Com tudo o que isso terá de negativo, parece-me óptimo que 2666 se tenha vendido tão bem. É certo que a percentagem de compradores que o leu até ao fim será esmagadoramente inferior à de compradores de Dan Brown, Stephenie Meyer ou José Rodrigues dos Santos que os lêem até ao fim. Tal como é certo que a percentagem de leitores que depois de ler 2666 vai ler outros livros de Bolaño ou autores latino-americanos é absurdamente inferior à de leitores que depois de ler O Código Da Vinci vai ler outros livros de Dan Brown ou livros com capas que remetem à História da Arte e ao mistério; à de leitores que depois de Crepúsculo vai ler outros livros de Meyer ou livros de capa preta com ilustração a branco e vermelho; e à de leitores que depois de ler O Códex 632 vai ler outros livros de Rodrigues dos Santos ou livros de receitas de peixe.

Roberto Bolaño não é um autor fácil. Ver Roberto Bolaño nos tops de vendas faz tanto sentido como ver Borges, Sebald ou Faulkner. Mas se da generosa campanha de marketing perpetrada pela Quetzal & amigos tiverem surgido mais três, quatro, cinco pessoas que se apaixonaram por esta coisa dos livros, já terá valido a pena.

Depois de 2666 já li mais sete livros de Bolaño — sempre em espanhol. Talvez por ter sido o primeiro, 2666 continua a ser, de longe, o que mais me impressionou, aquele que considero a sua obra-prima, mesmo sendo póstumo e, supostamente, não estando terminado (ou pelo menos não na sua versão final). A obra de Bolaño é, para mim, tão monstruosa, tão cheia de recantos, negrume e neblina, que nunca fui capaz de sobre ela me debruçar na escrita, a não ser nestas invocações despreocupadas. Afigura-se-me como tarefa quixotesca a de escrever sobre a obra deste autor. É preciso atravessar o deserto de Sonora de olhos abertos, avistar os cadáveres em vez de tropeçar neles. Um dia enfrento esse medo.

_ Gonçalo Mira

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