It’s Britney, bitch!

britneyAlgures no início de Fevereiro, a Susana – companheira de um dos valiosos colaboradores deste espaço e uma das poucas pessoas no nosso círculo de amigos que nunca publicou aqui um texto (há-de chegar o dia) – enviou-me por e-mail um artigo do blogue da New Yorker que dizia ser interessante para a Orgia Literária.

O artigo em questão, de Avi Steinberg, intitula-se “Is Writing Torture?” e faz um apanhado de um pequeno sururu literário que passo a resumir. Julian Tepper escreveu um textinho (a que, muito pomposamente, se refere mais tarde como “um ensaio”) no blogue da Paris Review chamado “In Which Philip Roth Gave Me Life Advice”, no qual relata um encontro com Philip Roth num snack-bar onde Tepper trabalha. Tepper viu o seu herói sentado sozinho numa mesa, serviu-lhe o pequeno-almoço e ganhou forças para lhe entregar um exemplar do romance que tinha publicado, Balls (que escondia debaixo da máquina registadora para eventualidades destas).

Nada disto seria digno de nota se Roth não tivesse aconselhado o jovem romancista e empregado de mesa (depois de lhe dar os parabéns e elogiar o título) a desistir da escrita enquanto é tempo: «Eu desistia enquanto é tempo. A sério. É um trabalho horrível. É tortura. Horrível. Escreves e escreves e tens de deitar fora quase tudo porque não presta. Eu diria para parares agora. Não queres fazer isto a ti próprio. É o meu conselho.»; e se o jovem romancista não tivesse escrito o texto para a Paris Review.

Nesse momento entra ao barulho Elizabeth Gilbert, autora do grande clássico da literatura russa Comer, Orar e Amar. A senhora Gilbert, num ensaio (a sério, estes gajos chamam ensaio a tudo) no Bookish (um site que ainda não percebi bem para que serve), insurge-se contra o senhor Roth por ter este tipo de discurso, ainda para mais dirigido a um jovem romancista, cuja alternativa de vida parece ser trabalhar no snack-bar para o resto da sua existência.

Philip Roth, muito provavelmente demasiado feliz a gozar a sua recente vida de não-escritor, não disse nada. Mas Julian Tepper voltou, para defender o seu herói, e publicou uma espécie de carta aberta (a que, embora eu não tenha provas, provavelmente chamou ensaio) a Philip Roth, com o bonito título “Leave Philip Roth Alone!” – e eu espero que este título seja uma divertida alusão ao famoso vídeo “Leave Britney Alone!”, caso contrário, Julian, se me estás a ler, trabalhar num snack-bar não é assim tão mau. Esta carta, já agora, saiu no Daily Beast; o que me leva a crer que tudo isto é um plano engendrado por uma série de revistas e blogues e sites para que as pessoas lhes façam publicidade e eu estou a cair no engodo.

Mas agora que já expus o caso, mais vale começar a crónica (sim, isto era só a contextualização). E começo por dizer que Julian Tepper, apesar de ter um romance chamado Balls (Tomates), é um bocado coninhas. O seu relato do encontro casual com Roth tem semelhanças, ténues mas preocupantes, com os casos de adolescentes que conhecem os seus ídolos. Depois define assim a maravilha de ser escritor: «Ainda sinto com convicção que aquilo que um escritor tem sobre todos os outros (…) é a arma contra o aborrecimento. (…) Pois [o escritor] pode sempre perder-se no acto da escrita e fazer o tempo voar.» Na minha cabeça, Tepper está aqui a descrever uma excelente forma de morrer de tédio, não a arma para o combater.

O mundo seria um sítio melhor se a coisa tivesse ficado por aqui. Só que Elizabeth Gilbert – a eterna candidata ao Nobel – resolveu comentar. Diz ela que a escrita «comparada com quase qualquer outra ocupação no planeta, é fucking great» (eu traduziria isto como «é bom para caralho», mas tive medo de ser ofensivo). E porque é que é fucking great? Porque «podemos viver no reino da nossa própria mente». Uma vez mais, no reino da minha própria mente, Elizabeth Gilbert parece estar a descrever uma vida miserável, mas se calhar é só o reino da minha própria mente que é um bocado inóspito; o das outras pessoas deve ser uma pradaria verdejante, repleta de cavalinhos a galopar, cuja carne não é utilizada para fazer lasanhas.

Mais à frente, Gilbert insinua que, se calhar, os escritores já estabelecidos que se queixam das suas vidas miseráveis fazem-no «para que mais ninguém descubra o quão espectacular é escrever e lhes roube os empregos». E se Roth elogiou o título do romance de Tepper dizendo «Grande título. Espanta-me como não pensei eu nele», eu tenho de elogiar a senhora Gilbert dizendo: que hipótese tão óbvia, espanta-me como não pensei nela antes.

Gilbert, contudo, tem razão em alguns pontos. Por exemplo quando diz que uma das vantagens de ser escritor é «não estarmos expostos a nenhuma espécie de abuso sexual ou químicos tóxicos no local de trabalho», o que é, uma vez mais, muito bem visto. Sempre que tenho um novo emprego vivo semanas de tortura até me assegurar que não vou ser exposto a abusos sexuais ou químicos tóxicos; ou, meu deus, ambos em simultâneo.

Depois Tepper escreveu a tal carta de desculpa que começa muito bem, na segunda e terceira frases, e se espalha ao comprido logo a seguir, na quarta, quinta e sexta frases. O resto mete o avô e como o avô lhe faz lembrar o Philip Roth e segue nesse tom peixotiano, fazendo com que um coelhinho inocente morra enforcado a cada vírgula.

No artigo do blogue da New Yorker que faz o resumo disto tudo, com muito menos competência do que eu, Avi Steinberg começa por sugerir que «parece perfeitamente plausível que Roth se tenha sentido ameaçado por um jovem escritor cujo primeiro romance se chama Balls» para mais tarde dizer que «A minha aposta é que ele estava a brincar. O que não quer dizer que não estivesse a falar a sério.» Sobre isto, tenho duas coisas a dizer: 1) nada como ter um autor que vai formulando a sua opinião à medida que escreve o texto; e 2) eu não teria percebido esta afirmação se não tivesse entrevistado o Rogério Casanova esta semana e ele me tivesse explicado que dizer coisas com piada não é o contrário de dizer coisas sérias.

Tudo isto poderia ter sido um debate interessante se as pessoas que se envolveram no debate não fossem tão desinteressantes. Felizmente para vós, existem pessoas como eu, que vos explicam tudo como deve ser. E se estão a ler esta frase, já com os links abertos para lerem depois os textos de que falo, façam o seguinte: fechem essas janelas todas (excepto a do “Leave Britney Alone”). Já leram tudo o que interessa sobre isto. O árbitro já desfez o sururu e nem um fucking cartão amarelo foi preciso.

_ Gonçalo Mira

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