Ler muito e desistir

read-all-the-booksHá um conselho de escrita, daqueles que se dá aos jovens escritores em workshops e livros e aulas e conversas de café, que é unânime. Ler muito. Quando o conselho não aparece numa dessas listas de dez dicas infalíveis é porque já se tornou tão evidente que não há necessidade de o incluir. Ainda assim, defendo que se inclua. Se muitos dos escritores que todos os dias aparecem por aí lessem mais, talvez ganhássemos todos com isso. Ou porque muitos deixariam de tentar, ou porque os livros seriam melhores.

Por outro lado, não é incomum ouvir um escritor dizer que quando está a trabalhar num livro deixa de lado as leituras, seja para que não lhe minem a concentração ou para que o dissimulado vírus da influência (com mutações quase inesgotáveis: tema, personagens, estilo, voz, vocabulário, tempo, espaço, etc.) não tome de assalto o seu trabalho. Como acredito que os autores que dizem isto já leram muito, o conselho deverá ser qualquer coisa como: “Leiam muito, muito, muito e depois arrumem os livros e escrevam.”

A partir do momento em que uma pessoa decide ou sente que quer ou tem de escrever, todas as leituras que faz são potenciais leituras de investigação, de trabalho. Mesmo quando o móbil é apenas o prazer, mesmo quando o texto que se lê é totalmente diferente daquele que se quer escrever. E com trabalho não quero dizer que se faça uma ficha de leitura de cada vez que se chega ao último ponto final. É, muitas vezes, uma investigação inconsciente, que se manifesta sob a forma de comentários mentais que os apenas-leitores (por oposição aos leitores-escritores) também ouvirão: que início aborrecido, que final surpreendente, este diálogo parece real, que parágrafo ridículo.

Do ponto de vista do leitor-escritor, diria que as leituras se dividem em três tipos, de acordo com a sua influência: leituras que dão vontade de escrever, leituras que dão vontade de desistir da escrita e leituras que nem uma coisa nem outra.

As leituras que dão vontade de escrever, para mim, englobam nas suas fileiras tantos livros como as que nem uma coisa nem outra. Isto porque são categorias de espectro muito alargado. Por exemplo, há dias abri a mais recente obra de José Luís Peixoto, Dentro do Segredo, e li uma passagem (várias, até, mas para aqui só interessa esta) sobre barragens que não só era desnecessária ao texto, não acrescentando absolutamente nada, como estava escrita ao estilo composição-da-primária-as-minhas-férias-na-Coreia-do-Norte. Este tipo de leitura é uma leitura que dá vontade de escrever: estes livros publicados por editoras importantes, estes autores que ganham prestígio sabe-se lá como, deixam uma sensação de se-ele-consegue-isto,-eu-consigo-muito-mais.

Ainda assim, de entre as leituras que dão vontade de escrever, prefiro aquelas que provocam esse desejo por serem boas. Roberto Bolaño é um desses casos. Juan Villoro, escritor mexicano, diz isso mesmo num documentário sobre Bolaño: que o escritor chileno era muito lido por jovens e que provocava nestes o impulso da escrita. O efeito, parece-me, tem duas causas. A primeira é haver muitas personagens escritoras nos livros de Bolaño. Em Os Detectives Selvagens, sobretudo, esse efeito é multiplicado infinitamente por se tratar de um livro sobre jovens escritores (e fala-se de muitos). A segunda causa é a própria escrita de Bolaño, que é uma escrita simples, limpa, sem grandes artifícios, que provoca a ilusão de ser fácil. A voz não é imposta ao estilo, nasce dele. E é mais difícil do que parece.

Se a lista de leituras que dão vontade de ler se prolonga a partir de duas extremidades — a dos textos bons / interessantes que nos incutem o bichinho de tentar, também, escrever boas histórias e a dos textos maus / desinteressantes que nos espicaçam a fazer melhor —, a lista das leituras que nem uma coisa nem outra contém quase tudo o que fica entre aqueles dois pontos. Podem ser livros maus que toda a gente considera maus e que, por isso, não servem de incentivo; podem ser livros bons, cuja leitura é prazerosa, mas que não acendem nenhum interruptor cerebral; podem ser livros assim-assim; podem ser livros muito bons mas demasiado diferentes daquilo que nos vemos a fazer. E talvez possam ser outras coisas ainda que agora não me ocorrem.

O que não podem é ser aquilo que os faria entrar para a mais exclusiva e cruel das categorias, a das leituras que dão vontade de desistir da escrita. Aqui estão os livros que de tão geniais nos fazem pensar que não vale a pena tentar. Para quê, se nunca chegaremos a este nível? E embora eu próprio já me tenha cruzado com alguns exemplares desta espécie, e tenha arrumado para o lado esse desincentivo, sinto que é um conselho a que muita gente devia ter dado ouvidos (e sim, daqui a uns anos estará alguém a dizer isto de mim — espero eu). Vamos reformular o conselho para os jovens: “Lê muito, muito, muito. Até encontrares um livro tão genial que te faça pensar que não vale a pena escreveres porque nunca serás tão bom. E desiste.”

Lawrence Block (que é um dos tais de que gostei mas nem uma coisa nem outra) começa assim o seu livro Writing the Novel [a tradução é minha]: “Se queres escrever ficção, a melhor coisa que tens a fazer é tomar duas aspirinas, deitares-te num quarto escuro, e esperares que isso passe.” Como, infelizmente, a maioria das pessoas não segue este conselho, ou porque aquilo não passa, Block teve de escrever o resto do livro. Ainda bem para ele.

Na categoria das leituras que dão vontade de desistir da escrita coloco senhores como J. D. Salinger, Juan Rulfo, João Guimarães Rosa ou W. G. Sebald. O mais recente membro do clube é, para meu embaraço, um autor de quem ainda não li nenhum livro. Li vários contos, li vários ensaios, mas nenhum livro completo: David Foster Wallace. Se alguns dos seus ensaios e contos seriam argumentos suficientes para o incluir neste grupo, a biografia que li veio dar a machadada final. Every Love Story is a Ghost Story: a life of David Foster Wallace, de D. T. Max, não é uma biografia genial. Nem precisava de o ser. Basta-lhe ser uma biografia competente sobre uma pessoa genial. Ter acesso a este tipo de informação — a formação que Wallace teve, o background familiar, as experiências porque passou, as leituras que fez e a importância que dava à escrita — faz com que o resultado final, o escritor, faça todo o sentido. Não podia ser outra coisa. Não podia ser menos bom. Isto leva-me a concluir que mais vale desi—.

Não. Ainda não é desta.

_ Gonçalo Mira

One comment

  1. Escrever é uma tarefa nada complicada, só se precisa pegar no lápis e aplicá-lo com força a um papel (branco ou preto). Mas fazer sentido com o que se escreve exige muito mais do se dá. Faz-se viagens, perde-se sono, inventa-se e mais.

    Agora então que todo muito pensa que pode escrever porque tirou 10 na composição que fez na escola. (até eu -talvez)

    Por isso as vezes prefiro deixar as minhas coisas comigo, só pra evitar mais uma bobagem pelos ares alheios.

    Abraços;
    Cláudia Cassoma

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s