O Desprezo, Alberto Moravia

desprezoAlberto Moravia não quis enganar o leitor: O Desprezo denuncia-se logo no título. Fica-se, desde a capa, avisado de que o romance tem como pedra basilar esse obscuro sentimento. Não se pode, assim, augurar coisa bonita. Adivinha-se à partida uma história infeliz, odiosa – talvez o desprezo seja a forma mais cruel de odiar. E aquilo que se adivinha confirma-se. Alberto Moravia (1907-1990), um dos mais importantes escritores italianos do século XX, não quis enganar o leitor.

Publicado originalmente em 1954, quando Moravia já era um autor popular em Itália, O Desprezo não é das obras mais conceituadas do autor. Parte substancial da sua fama terá, certamente, origem extra-literária, proveniente da adaptação cinematográfica de Jean-Luc Godard (Le Mépris, 1963). O realizador francês disse mesmo tratar-se de um romance simples e vulgar – e este seria, na opinião de Godard, o tipo de livros com que se fazem os melhores filmes.

Se é verdade que deste romance Godard fez um filme magistral, não será tão pacífica a afirmação de que estamos perante uma obra simples e vulgar. Simples talvez seja, se nos cingirmos sobretudo aos aspectos formais. A escrita é, realmente, simples e não há espaço para grandes dispersões ou reflexões. Tudo se conjuga para um objectivo muito concreto: narrar a história. Porém, quando pensamos no conteúdo dessa narrativa, talvez deixemos de achar a obra tão simples e vulgar.

Não é verdade que o fim de uma relação seja um tema original, ou que o nascer de um sentimento como o desprezo, entre um casal que vivia, até então, um matrimónio feliz, seja assunto inovador. Todavia, não devemos confundir um tema relativamente comum com a simplicidade e a vulgaridade. Os sentimentos e as relações humanas são, inquestionavelmente, matérias de grande complexidade (por mais comuns que sejam). Godard há-de saber perdoar quem dele discorde.

E se o romance não é tão simples ou vulgar quanto poderia ser, isso deve-se ao perfeito casamento entre a narrativa e a narração. O narrador é Ricardo Molteni, argumentista de cinema, personagem principal a par da sua mulher Emília. Ricardo começa por nos dizer o seguinte: «Durante os dois primeiros anos de matrimónio as relações com minha mulher foram – hoje posso afirmá-lo – perfeitas.» E conclui o primeiro parágrafo desta forma: «Nesta história quero contar como, enquanto eu continuava a amá-la e a não a julgar, Emília, pelo contrário, descobriu, ou pensou descobrir alguns defeitos em mim, julgou-me e por consequência deixou de amar-me.»

Deste modo, o narrador abre o jogo logo no primeiro parágrafo. O leitor fica assim a saber que o presente em que Ricardo escreve é, para quem lê, o futuro. Ou seja, Ricardo escreve esta história depois de conhecer o seu desfecho. Ricardo sabe tudo o que vai contar, sabe mais do que o leitor. Isto potencia um interessante jogo de revelações e saltos temporais. O argumentista cede à tentação de revelar coisas que só mais tarde percebeu, e não no presente da narração. Com um exemplo torna-se mais claro: «apercebo-me de guardar uma recordação confusa de um incidente que então me pareceu sem significado, mas ao qual, em seguida, tive, pelo contrário, de atribuir uma importância decisiva».No momento em que tal aconteceu, Ricardo não lhe deu importância; todavia, mais tarde percebeu que aquele incidente era fulcral. E aqui fornece ao leitor pistas que ele só muito mais tarde percebeu.

O incidente em questão poderá ser o despoletar do desprezo em Emília. Acontece logo no primeiro capítulo. Ricardo e Emília são convidados para jantar em casa de Battista, um produtor para quem Ricardo ia trabalhar. Battista tem um carro desportivo de dois lugares apenas e sugere que Emília o acompanhe, enquanto que o marido os seguiria num táxi. Emília, incomodada, sugere ir com o marido no táxi. Ricardo, sem saber porquê, insiste para que a mulher vá com Battista e esta acaba por ceder. Este é o primeiro incidente que incendiará, em Emília, o rastilho do desprezo pelo seu marido. Mais adiante na obra existe um momento muito semelhante: viajam para Capri, uma ilha a sul de Nápoles, Ricardo, Emília, Battista e Rheingold – realizador alemão com quem Ricardo ia trabalhar. Novamente Battista sugere que Emília vá no seu carro, de modo a deixar o argumentista e o realizador livres para falarem sobre o filme. Novamente Emília se mostra enfastiada com tal perspectiva. E novamente Ricardo concorda com Battista.

Se o título e o início do livro nos dão imediatamente a perspectiva do que acontece naquela relação, fica a faltar-nos saber o porquê. Serão este tipo de episódios, como os dois anteriormente referidos, o principal motivo?

Uma pista forte para uma interpretação dos problemas desta relação é-nos dada – e a Ricardo também – por Rheingold. O alemão realizaria um filme baseado na Odisseia de Homero, com argumento de Ricardo e produção de Battista. Foi para trabalhar neste projecto que os três, com a companhia de Emília, foram para Capri. Quando o realizador expõe a Ricardo a sua interpretação psicanalítica da Odisseia ou, mais concretamente, da relação entre Ulisses e Penélope, estabelece-se um paralelismo perfeito com o matrimónio de Ricardo. E Rheingold expõe detalhadamente, neste brilhante capítulo 17, os motivos que levaram Penélope a desprezar Ulisses.

Ricardo rejeita totalmente a interpretação de Rheingold. A sua visão da Odisseia nada tem que ver com a psicanálise. A sua visão é muito mais próxima da de Homero. Pelo menos é isso que ele acha. Contudo, não será legítimo desconfiar de que a veemente rejeição, por parte de Ricardo, da leitura de Rheingold se deve, afinal, à identificação entre a relação de Ulisses e Penélope com o seu próprio casamento? Porque, no fundo, Rheingold está a dar-lhe as respostas que ele tanto procurava. Acontece que, possivelmente, Ricardo não as queria encontrar. Ricardo recusa-se a aceitar esta realidade. A da mulher que já não o ama e que, pior do que isso, o despreza. Recuando um pouco na narrativa, temos um exemplo claro desta recusa por parte da personagem principal: «o homem quer sempre esperar, mesmo quando está convencido de que não há esperança: tivera a demonstração de que Emília já não me amava, e todavia ficava-me ainda a dúvida ou, melhor, a esperança de ter dado uma interpretação errada a um incidente no fundo sem importância.»

O encanto de O Desprezo não está nas surpresas do enredo, porque são pouquíssimas, nem mesmo nas razões que justificam o desprezo de Emília. Aquilo que realmente faz deste romance uma obra notável é a personagem de Ricardo e o modo sublime como Alberto Moravia a construiu. O interessante é percebermos o conflito que vai dentro deste homem, o turbilhão de sentimentos que a atitude da mulher lhe provoca, a sua luta para perceber o porquê e o seu não querer ver os motivos. O Desprezo é um romance desencantado e desiludido, com um final condizente. Uma história cinzenta sobre um fundo azul – o azul do mar de Capri, realçado pelo forte sol do Verão italiano.

Gonçalo Mira

O Desprezo
Alberto Moravia
trad.  Maria Tereza de Barros Brito
Editores Associados
s. d.

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