A impossibilidade da homossexualidade em Grande Sertão: Veredas

grandesertaoGrande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, é uma obra em que a religiosidade – neste caso a fé cristã – tem uma presença muito forte e bastante evidente, ou não fossem temas centrais da narrativa a distinção entre o bem e o mal, Deus e o Diabo. Esta ideia é expressa na perfeição quando Riobaldo diz: «(…) eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados…» Naturalmente, a concepção de amor – e, consequentemente, a ideia de casal – presente na obra é uma concepção cristã. Nesse sentido, é interessante ver como é tratada a homossexualidade na obra. Uma vez que o segredo de Diadorim só é descoberto após a sua morte, o desejo e o amor que por ele nutre Riobaldo tem de ser visto como um amor homossexual.

Uma vez que a obra é atravessada pela fé, e ainda que Riobaldo não seja a mais crente das personagens, a homossexualidade acaba por ser reprimida e reprovada. Isto é, o próprio Riobaldo afirma a impossibilidade daquele amor, por ser um amor homossexual, e reprime-o, tanto quanto possível, dentro de si: não se permite deixar-se embriagar pelo desejo que sente por Diadorim a ponto de o consumar, ou seja, o amor de Riobaldo por Diadorim (e de Diadorim por Riobaldo) nunca passa do platonismo.

Ainda nas primeiras páginas do romance, Riobaldo diz: «De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, e também, recesso dum modo, a raiva incerta, por ponto de não ser possível dele gostar como queria, no honrado e no final. Ouvido meu retorcia a voz dele. Que mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.» Neste passo do texto está bastante explícita a luta interior de Riobaldo: a emoção incute-lhe aquele amor e aquele desejo por Diadorim, enquanto que a razão os reprime. Quando Riobaldo se lamenta por “não ser possível dele gostar como queria, no honrado e no final”, afirma não só a imoralidade daquele amor, como também a ilegalidade. Deste modo, ainda que em segredo o consumassem, pode especular-se que a dor persistiria em Riobaldo por não poder oficializar, digamos assim, aquele amor, aquela relação. E ao longo do texto há diversos outros momentos em que Riobaldo evoca, sempre com tristeza, a impossibilidade daquele amor.

Já a última frase do trecho citado, demonstra bem a impotência da razão sobre a emoção. Ainda que a força desta razão opressora seja suficiente para nunca deixar Riobaldo consumar o seu desejo, a verdade é que não é tão forte que consiga apagar o sentimento que este sente por Diadorim. Contudo, pode dizer-se que, para que a razão consiga, de certo modo, manter o sentimento encarcerado em Riobaldo, muito contribui a atitude de Diadorim. Isto porque Diadorim, apesar de por diversas vezes dar a entender que gosta de Riobaldo do mesmo modo (quer seja pelas coisas que lhe diz, quer seja pelas atitudes, como o ciúme por Riobaldo se envolver com mulheres), também reprime aquele amor dentro de si e não possibilita o seu extravasamento. Esta atitude de Diadorim, em tudo semelhante à de Riobaldo, percebe-se plenamente quando este último diz: «Teve um instante, bambeei bem. (…) Meu corpo gostava de Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia, bobamente, ele me olhou – os olhos dele não me deixaram. Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi – ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo dele, na sala do teatro.» Porém, se à partida se pode dizer que os dois estão numa situação igual – ambos nutrem pelo outro um amor e um desejo impossíveis de consumar – na verdade (ou melhor, no final do romance) percebemos que não é assim. Diadorim esteve, o tempo todo, na posse do segredo que tornava possível, se revelado, aquele amor. Portanto, pode especular-se (uma vez que no texto a informação sobre isso é escassa) que a luta interior de Diadorim é ainda mais violenta que a de Riobaldo, uma vez que Diadorim possui o segredo, que opta por manter até ao fim, talvez para não perturbar a empresa daquele bando de jagunços.

E se Diadorim não oprimisse os seus sentimentos? Como reagiria Riobaldo? Aparentemente, nem assim Riobaldo iria ceder. Pelo menos é o que parece quando diz: «A vai, coração meu foi forte. Sofismei: se Diadorim segurasse em mim com os olhos, me declarasse as todas as palavras? Reajo que repelia. Eu? Asco! Diadorim parava normal, estacado, observando tudo sem importância. Nem provia segredo. E eu tive decepção de logro, por conta desse sensato silêncio?» Aqui parece evidente que nem uma iniciativa de Diadorim faria Riobaldo ceder àquele amor. Pode dizer-se que a concepção da homossexualidade como algo de muito errado prevalece. Daí Riobaldo utilizar mesmo a palavra asco para caracterizar aquela possibilidade (e esta não é a única vez que a palavra é utilizada neste contexto; o mesmo ocorre no passo: «Diadorim me queria tanto bem, que o ciúme dele por mim também se alteava. Depois dum rebate contente, se atrapalhou em mim aquela outra vergonha, um estúrdio asco.») Contudo, na última frase deste passo, Riobaldo levanta a hipótese de uma decepção pela falta de iniciativa de Diadorim. A verdade é que essa iniciativa não passa do campo da hipótese, o que faz com que também a reacção de Riobaldo possa ser vista apenas como hipótese. A ter ocorrido algo diferente, Riobaldo poderia não reagir como acha que reagiria.

Há ainda outras passagens que sustentam esta visão da homossexualidade como algo de muito reprovável, como quando Riobaldo diz: «Mas, mesmo, achei que ali convinhável não era se ficar muito tempo juntos, apartados dos outros. Cismei que maldavam, desconfiassem de ser feio pegadio.» O “feio pegadio” para designar o amor entre dois homens e a preocupação em relação ao que os outros iam pensar se os vissem muito tempo juntos demonstram essa reprovação da homossexualidade. Porém, este não é o caso mais evidente. Embora não seja utilizada a palavra no texto, pode dizer-se que a homossexualidade é vista como um pecado. Isso percebe-se no seguinte passo: «Acertei minha idéia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. Ia, por paz de honra e tenência, sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia de quebrar o morro: acabar comigo! – com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo.» Aqui a homossexualidade é vista como um pecado e uma desonra tal, que a única solução para o “problema” é o suicídio.

Todavia, nem só de reprovação e contenção se faz este amor. Há um momento no texto em que Riobaldo não o reprova: «Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora.» Aqui, Riobaldo aceita este amor pacificamente. Porém, é um momento que não se repete no texto. Já no que diz respeito à contenção do amor, existe um outro “deslize”, para além do já referido episódio em que Riobaldo bambeia e encontra a resistência no olhar de Diadorim. Esse outro ceder ao desejo ocorre numa ocasião em que Diadorim se afasta: «De repente, uma coisa eu necessitei de fazer. Fiz: fui e me deitei no mesmo dito pelego, na cama que ele Diadorim marcava no capim, minha cara posta no próprio lugar.» Mesmo não sendo uma consumação total do desejo – porque é dirigido a algo que pertence à pessoa amada, que guarda a presença da pessoa, mas que não é a pessoa amada – é, sem dúvida, um momento em que o lado emocional se sobrepõe ao racional.

Se exceptuarmos aquele momento em que Riobaldo não reprova o seu amor por Diadorim, ao longo de toda a obra a homossexualidade é vista como algo errado e reprovável. Aliás, isso é visível não só pelos motivos já enunciados, mas também porque há um certo pudor em referir a homossexualidade. Fala-se da impossibilidade daquele amor, mas quase nunca se explica, de facto, o porquê. Isto é, o porquê está subentendido e, por isso e por pudor, não é referido. Só já perto do final do romance é que o motivo que torna impossível aquele amor é referido claramente. Isto acontece em duas passagens: «De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe.» e «Mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação – por detrás de tantos brios e armas? Mais em antes se matar, em luta, um o outro. E tudo impossível.» Nestes dois excertos é referido, sem rodeios, que a impossibilidade daquele amor se deve ao facto de que não é possível dois homens, dois seres do mesmo sexo, se amarem.

Como demonstram os vários passos do texto citados, em Grande Sertão: Veredas a homossexualidade é vista como algo de incorrecto e reprovável, facto que muito deve à concepção católica cristã do amor. Porém, as inclinações do coração não se podem controlar e, ainda que Riobaldo tente canalizar aquele amor no sentido de uma amizade apenas, há diversas passagens em que o desejo sexual é por demais evidente. Para Diadorim, como já foi dito, a situação é diferente. Apesar de este também retrair o sentimento e não possibilitar a investida de Riobaldo, os seus motivos serão outros, uma vez que Diadorim é quem detém o segredo do seu verdadeiro sexo, que tornaria legítimo aquele amor. Portanto, a questão da homossexualidade só pode ser vista através da personagem de Riobaldo, para quem, de facto, aquele amor era um amor em tudo proibido, por ser o amor de um homem por outro homem.

Gonçalo Mira

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2 comments

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  2. Emanuel de Carvalho

    Os seres humanos complicam tudo.
    Sofrer porquê?Ser infeliz porquê?Baseara sua vida num livro”sagrado”cheio de terror,repressão,incoerencias e violência contra os seres humanos?Se seu deus não aprova a homossexualidade,vire budista,ou qualquer outra coisa.
    Tão simples!!

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