A Morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi

amortedeivanilitchÉ curioso ler o prefácio de António Lobo Antunes a esta edição da Booket da novela de Lev Tolstoi, A morte de Ivan Ilitch, traduzida do russo por António Pescada. Diz Lobo Antunes, acerca da obra, o seguinte: “(…) não há sentimento que nele não figure, não há emoção que não esteja presente. Tudo o que somos se acha em poucas páginas, escrito de uma forma magistral.”

O leitor que conheça um pouco o percurso literário de Lobo Antunes, principalmente o caminho que os seus últimos romances tomam, e que tenha lido uma ou outra entrevista do escritor, não pode deixar de pensar nisto. Lobo Antunes diz frequentemente, nas entrevistas que dá, que o que quer nos seus livros é colocar a vida toda entre as capas. Criar um livro em que todas as páginas sejam espelhos: que reflictam o leitor. Ora A morte de Ivan Ilitch é, segundo Lobo Antunes, isso mesmo. Não está em causa se Lobo Antunes o consegue ou não, ou se o vai conseguir. O curioso é olharmos para esta obra de Tolstoi, que consegue aquilo que Lobo Antunes almeja, e olharmos para os últimos romances de Lobo Antunes. É curioso porque, para conseguir aquilo que Tolstoi conseguiu, o escritor português escolhe um caminho muitíssimo diferente.

A morte de Ivan Ilitch é um livro curto, directo e sem floreados. Aquilo que tem a dizer é dito em poucas páginas e de forma simples. Este facto, porém, não pode ser confundido com o conteúdo da obra, que não podia de forma nenhuma ser simples, porque a morte não é simples. E é de morte que se fala, pois claro, o próprio título o denuncia. Mas será um livro sobre a morte ou um livro que nega a morte? É Lobo Antunes quem relembra esta discussão, provavelmente insolúvel, em torno da obra. Então mas um livro que negue a morte, não será um livro sobre a morte também? Negar algo é dar-lhe importância, é tomar uma posição. Não é o mesmo que a indiferença. Se há coisa que não se pode dizer deste livro é que é um livro que olha para a morte com indiferença. Pois até aqueles que pensam nos benefícios que a morte de Ivan Ilitch lhes trará, estão a dar-lhe importância. A ela, à morte.

Porém, não deixa de ser extremamente pertinente falar em negação da morte. A morte era e é (e será sempre?) um profundo enigma. O ser humano não está preparado para a morte. Tem um defeito de fabrico que é o de se julgar imortal. E, depois, perante a morte, a coisa complica-se, porque nada faz sentido. Pode presenciar a morte de outros, pode presenciar a agonia de outros. Tudo o que nos lembra a efemeridade da vida é incompreensivelmente esquecido. E por isso é incompreensível que só possamos viver setenta, oitenta, noventa anos. É incompreensível que tenhamos de sofrer, de ser velhos, de ser incapazes, de depender dos outros para quase tudo.

Ivan Ilitch sofre terrivelmente. As dores são insuportáveis e nenhuma posição lhe traz conforto. Nem já de pés elevados, apoiados nos ombros do seu fiel criado Guerássim, a única pessoa que compreende o seu sofrimento. Todavia, a pior dor, aquela que lhe tira o sono e lhe torna os dias em tormento, é a dor moral. A dor que o faz perguntar-se e colocar tudo em dúvida. Porque uma pessoa não pode ser condenada a tamanho sofrimento sem que tenha feito tudo mal durante a vida. Ivan Ilitch, que julgou reger-se sempre pelos padrões da decência e não ter sido má pessoa, para usar da modéstia e não dizer mesmo boa pessoa, só pode ter sido, afinal, uma pessoa muito má. Só pode ter feito tudo ao contrário do que deve fazer-se. Que outra razão pode justificar tamanho castigo?

E o facto de ninguém compreender o seu sofrimento, a sua dor real e a sua dor moral, fá-lo sentir uma raiva e um ódio profundos por todos aqueles que o rodeiam. O simples facto de eles estarem bem parece-lhe uma ofensa tremenda. E a mentira que criam de que Ivan Ilitch não está às portas da morte, só agrava a situação. Na verdade, os que o rodeiam, embora não sejam capazes de o expressar, sentem a mesma raiva e ódio pela sua condição, pois estão convencidos que a culpa não é de outro senão dele. Ele é um incómodo, um estorvo, é uma coisa que atrapalha e que perturba. Ivan Ilitch é o retrato da morte e o retrato da morte não pode ser uma coisa bela e agradável de se ter em casa ou como colega de trabalho.

A morte de Ivan Ilitch pede para ser lido e relido. As suas pessoas, e é propositada a utilização deste vocábulo em vez de personagens, têm carne e têm ossos e já as vimos por aí. São nossas vizinhas, são nossos parentes, vivem em nossa casa. António Lobo Antunes diz que está tudo nesta pequena novela e é capaz de ser bem verdade. Cem páginas de vida. Muitos chamam-lhe a mais perfeita novela da literatura. E pode não existir nenhuma melhor que esta, pode nunca vir a existir. A morte de Ivan Ilitch é uma obra-prima. Evocando António Lobo Antunes, A morte de Ivan Ilitch é um livro em que todas as páginas são espelhos.

Gonçalo Mira
A Morte de Ivan Ilitch
Lev Tolstoi
trad. António Pescada
Booket
2007
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