«Podia ser perigoso estar constantemente fechado num quarto»: Entrevista a Gonçalo M. Tavares

goncalomtavaresGonçalo M. Tavares nasceu em 1970 e em 2001 foi publicada a sua primeira obra. Desde então já publicou mais de vinte livros, em diversos géneros, e ganhou quase todos os mais importantes prémios literários da língua portuguesa. É frequentemente referido como o mais interessante autor da nova geração, o que quer que isso seja. A apresentação, que se podia dispensar, está feita.

Aproveitámos o lançamento recente de Aprender a rezar na Era da Técnica (Caminho) para conversar um pouco sobre a sua obra, mas sobretudo sobre a tetralogia de Livros Pretos “O Reino”, que foi concluída com este romance. _ Gonçalo Mira

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Porquê livros pretos?

Essa designação foi uma designação quase óbvia, no início, porque tinha a ver, em primeiro lugar, com as capas pretas e é evidente que remete também para um certo ambiente pesado. E se calhar foi também um contraponto com “O Bairro”. Digamos que o nome, mais do que livros pretos, neste momento o que me pareceu evidente, porque as coisas vão aparecendo aos poucos, é que o nome que eu dou à tetralogia é “O Reino”. É como se fosse o título de um romance único, realmente composto por quatro romances.

Então surgiram-te primeiro as capas pretas ou pensaste primeiro no nome livros pretos?

Já não sei bem. Acho que foi uma coisa quase simultânea. Aquelas capas apareceram naturalmente. Daqui a uns tempos talvez apareça uma reedição com outro tipo de capas. Ou seja, o título não remete só para a capa, até porque eu incluo nos livros pretos o Água, Cão, Cavalo, Cabeça. Portanto, a capa é apenas um sinal mas não é o mais importante.

Interessa-te explorar esse lado negro da nossa espécie?

Interessa-me, tal como interessa explorar outros lados. Por exemplo, se pensarmos no Senhor Valéry ou no Senhor Calvino, ou por exemplo nas Breves notas sobre o medo, acho que são outros lados que são explorados. Por vezes exploro a lógica, por vezes exploro a ideia de paradoxo. Aqui realmente trata-se de… eu gosto da palavra investigar. Portanto, acho que é mais a ideia de tentar perceber, não é encontrar soluções nem respostas, mas tentar perceber melhor como é que funciona o homem em circunstâncias, por vezes, de limite. Neste último romance, Aprender a rezar na Era da Técnica, isso está muito evidente. Procuro perceber como é que um homem se pode comportar perante, por exemplo, o poder extremo ou perante a doença. E é isso que me interessa: tentar perceber melhor. Ou seja, é um pouco como se os livros permitissem, espero eu, que um leitor consiga perceber melhor o problema. Não encontre uma solução, porque para esses problemas não há soluções, mas que perceba melhor o homem e o que o homem pode fazer em determinadas circunstâncias.

Achas que a loucura pertence a esse lado mais negro do ser humano?

É fundamental não romantizar a loucura. A loucura concreta é uma coisa muito dura, muito violenta.

Sim. Por exemplo Lenz, no último romance, tem uma ideia um pouco romântica, tem uma grande atracção pela loucura e pelos loucos.

Exacto. Mas se pensarmos no Jerusalém é evidente que os loucos são portadores de um sofrimento muito forte. Agora, por vezes, como no Jerusalém, a marca da maior violência vem das pessoas mais racionais, como o director do hospício. Provavelmente as coisas mais violentas, ou muitas das coisas violentas, vêm daí e não propriamente dos loucos. Ou seja, respondendo um pouco à pergunta, muitas vezes a violência não vem das pessoas que perderam a razão mas, às vezes, até estranhamente das pessoas que têm o total controlo da razão.

E será que podemos dizer que todos, ou quase todos, os protagonistas desta tetralogia são loucos? Isto é, há os que são vistos como loucos – como Mylia e Ernst – mas todos os outros, os mais racionais, têm uma racionalidade que está na fronteira entre a racionalidade e a loucura.

Não sei, tenho algumas dúvidas. Eu acho que é perigoso associarmos o mal, ou a possibilidade de fazer o mal, com a perda da razão. Quer seja, é evidente, nos loucos quer seja noutras pessoas, a razão levada ao extremo. Porque, precisamente, o que me parece importante é também estarmos um bocado atentos à racionalidade, porque a racionalidade é ela própria portadora de violência. Ou seja, acho que não se deve associar uma pessoa racional a uma pessoa bondosa. A razão e o bem não estão associados. Aliás, claramente o grande drama do século XX, se pensarmos na 2ª Guerra, no Holocausto, é que não há uma dissociação, bem pelo contrário, entre razão e violência extrema. Pelo contrário, razão e violência extrema estão muito ligadas. Portanto, eu diria que esses protagonistas são protagonistas muito humanos, no sentido em que não são, espero eu, ingenuamente pintados como seres magníficos e como seres humanos bondosos em qualquer situação. Até porque eu acho que todos nós somos muito condicionados pelo que nos vai acontecendo. E, portanto, a proclamação de que eu sou um homem bom, independentemente do que aconteça, é uma proclamação perigosa. Quando as circunstâncias mudam nós podemos fazer actos de que nos envergonharemos mais tarde.

O protagonista de Aprender a rezar na Era da Técnica faz uma distinção interessante entre a bondade e a competência técnica. Ele diz que por ser um bom médico e salvar vidas não significa que seja boa pessoa. O que é que é mais importante: ser bom ou ser competente?

Eu penso que isso é realmente um dos temas principais do romance. O que me parece é que há uma transferência, que não é dos últimos anos, é das últimas décadas ou eventualmente do último século e meio. É difícil precisar quando é que essas coisas começam. Mas é uma transferência da questão da bondade para a questão da competência. É evidente que para mim, neste momento, talvez seja claro e não seja muito injusto se eu disser que a maior parte das pessoas tem mais vergonha de, por exemplo, não dominar o último programa do Windows do que de mentirem. Ou seja, as questões morais começaram a diluir-se um pouco nas questões técnicas e, portanto, há claramente uma transformação de valores, onde a técnica começa a dominar. E a técnica a todos os níveis, não apenas técnica de maquinarias, realmente a técnica de competências. E nesse aspecto, para mim é claro que a moral do século XXI é uma moral completamente diferente do que era a moral, por exemplo, clássica. É evidente que há uma alteração.

É necessário aprender a rezar na era da técnica?

Isso é uma pergunta interessante. O título do livro já suscitou várias interpretações e isso agrada-me imenso. E por isso é que eu tento nunca dar uma interpretação definitiva de uma passagem do livro ou de um título, porque, para já, não há interpretações definitivas. Cada leitor tem a sua interpretação. Mas uma leitura pode ser essa, de que é necessário um contraponto para a evolução da técnica e que esse contraponto possa ser o carácter religioso. Se calhar também se pode pensar o que é isto de rezar. Será que no século XXI, no ano de 2008, fará sentido rezarmos da mesma maneira do que rezávamos há cem anos, ou há duzentos, ou há dois mil anos? É uma coisa que para mim é muito clara. Neste momento, a nossa paisagem é completamente diferente, se pensarmos em há dois mil anos então… Temos uma paisagem em que a técnica e as máquinas estão por todo o lado. Portanto, nesta nova paisagem da técnica, em primeiro lugar, será que faz sentido rezar? E depois, se faz sentido, que tipo de oração ou que tipo de reza faz sentido? Será que faz sentido rezarmos exactamente da mesma maneira? Isso é uma questão que se calhar este romance coloca. E provavelmente a forma de rezar do protagonista, do Lenz Buchmann, pode dar a ideia de que ele não reza, mas também podemos interpretar como uma outra forma de oração. Eventualmente a cena final pode ser interpretada dessa forma. Portanto, não sei se é preciso rezar ou não, o que é preciso é pensarmos se faz sentido rezar e se faz sentido continuarmos a rezar da mesma maneira. Talvez este livro ponha algumas questões sobre isso.

Este médico de Aprender a rezar na Era da Técnica é muito racional, ao passo que o médico de Jerusalém era um médico muito crente. Tinha uma visão muito distante da dos restantes médicos. Como é que podem coabitar a ciência e a religião?

Tradicionalmente há a tendência para as colocar quase como se fossem dois inimigos, a ciência e a religião. A ciência como espaço que vai tirando bases e fundamentos religiosos através de novas investigações. Eu acho que podemos não ter esta visão dualista entre ciência e religião. Para já, os próprios métodos científicos pressupõem internamente uma espécie de crença. Aliás, há vários autores que falaram sobre esta ideia: a ciência, dentro dela própria, tem uma crença nos seus métodos. Uma crença que não é uma crença religiosa, não é uma crença num deus ou em vários deuses, mas é uma crença nos seus métodos. Portanto, acredita que os seus métodos conseguem chegar à verdade. E isto é, de certa maneira, uma crença. Por outro lado, há inúmeros casos de cientistas crentes. Cientistas de grande qualidade extremamente crentes. Portanto, não é uma coisa que invalide a outra. Penso, aliás, que há uma tendência mais recente… Há várias tendências. Há uma tendência anti-religiosa, há uma tendência científica que se aproxima da religião. Há tantas tendências e tão diferentes que é difícil dizermos que a ciência vive sem religião ou que a religião se afasta da ciência, ou vice-versa. Há uma série de movimentos que estão a aparecer. O que só mostra que, realmente, a religião é uma coisa que não se pode eliminar das vidas. Isso para mim é muito claro. Mesmo quando uma pessoa combate a religião, é sinal de que o carácter religioso continua presente e tem importância. Porque nós não combatemos algo que não tem importância. A única conclusão que eu tiro é que mesmo com a evolução científica prodigiosa dos últimos tempos, a religião continua sempre, qualquer que ela seja, a ter o seu espaço.

Interessas-te muito por ciência? É que a tua própria escrita tem certos momentos de rigor científico, com encadeamentos lógicos que lembram o pensamento científico.

Sim. Isso é interessante. Interesso-me bastante por ciência. E até talvez, em próximos livros, esse cruzamento entre ciência e literatura apareça mais, porque, realmente, cada vez me interesso mais por ciência. O que eu penso em termos de interesses é que tudo pode ser interessante, se nós tivermos um olhar não preconceituoso. E gosto da ideia de mistura. Não gosto da ideia de que uma área vive isolada das outras. A literatura não pode viver isolada da ciência, da própria religião, etc. Eu leio muitos livros de ciência, é algo que me interessa bastante e acho que, provavelmente, vai tomar mais importância, para mim, no futuro.

E achas que a ciência pode explicar tudo? Por exemplo, a personagem do Thomas Busbeck (em Jerusalém) queria estudar o horror sobre massas, de modo a chegar a conclusões científicas, como a frequência com que acontecem. É possível explicar cientificamente algo deste género?

Se a ciência pode explicar tudo? Não. Eu acho que a presença da religião e a presença da crença – e aliás nos últimos tempos o aumento da importância da crença religiosa – mostra que a ciência não pode explicar tudo. Se pudesse explicar tudo, todos esses impulsos religiosos se apagariam. E há perguntas básicas, quase essenciais, que a ciência ainda não pode responder. E se calhar é por isso que a crença religiosa continua muito intensa.

Há pouco falávamos do facto de vivermos numa era de técnica e de ciência. Será que a própria espécie humana caminha para uma mecanização? Joseph Walser (em A máquina de Joseph Walser) pode ser visto como uma máquina. E quando perde um dedo, é uma máquina que perde uma peça.

É interessante essa interpretação. Eu acho que sim, por um novo conjunto de vidas que quase se transformam em vidas mecânicas, infelizmente. Acho que hoje, no século XXI, como no século XIX, XVIII e até mesmo antes, isso acontece, se considerarmos o mecânico como algo que se repete: fazer sempre a mesma coisa. Não sei se há uma relação entre o aparecimento de mais máquinas, mais tecnologia e uma mecanização do homem. Na origem do aparecimento das máquinas havia uma espécie de utopia, que já foi abatida, de que as máquinas iriam libertar a criatividade do homem. O [Antonin] Artaud fala um bocado disso, diz que com o aparecimento das máquinas os homens poderiam dançar. O Artaud e outros autores falam dessa ideia: eu quero ser uma máquina em determinadas coisas, para poder dançar, festejar, criar, e todas as minhas funções básicas poderem ser satisfeitas com uma máquina. Há um texto muito importante do [Gilles] Deleuze, que pegou nessa ideia do Artaud, que defende a ideia de que um corpo sem órgãos – portanto, sem estômago, sem necessidade de se alimentar – muito próximo de uma máquina, sem necessidades orgânicas, seria um corpo mais livre, porque as necessidades orgânicas, se nós pensarmos, são as necessidade que, de certa maneira, nos escravizam. Se nós não precisássemos de comer, provavelmente não precisaríamos de fazer trabalhos de que não gostamos. Portanto, há um conjunto de necessidades orgânicas biológicas que nos mecanizam, num certo sentido. E o que pode parecer estranho, era o que defendiam alguns autores desta linha, é que se nós não tivéssemos necessidades orgânicas podíamos ser mais livres e mais criativos. Acho que esta é uma linha possível. O que me parece é que nós temos de lidar com as máquinas, percebendo que a mesma máquina nos pode escravizar, nós podemos ser escravos da máquina, ou nós podemos aproveitar a máquina para fazer qualquer coisa de interessante e pessoal. Acho que tem muito mais a ver com a forma como nós lidamos com as máquinas. Apesar de haver, julgo eu, mecanismos que transmitem mais passividade do que outros. Por exemplo, eu acho que a televisão é um transmissor de passividade. É muito difícil ser activo frente a uma televisão. Enquanto que se pensarmos, por exemplo, na Internet, apesar de tudo, eu acho que a pessoa pode ser muito mais activa, muito mais criativa, em frente a um computador. Mas claro que isto não são regras. Há pessoas que ficam totalmente passivas diante de um computador, e diante da Internet, e há pessoas que podem conseguir através de um programa de televisão estar, ao mesmo tempo, a provocar na sua cabeça alguma coisa de interessante. Tem muito a ver com a forma como nós enfrentamos o objecto técnico.

O corpo e a mente são dois elementos muito explorados na tua obra. À partida, seríamos levados a pensar que a mente tem poder sobre o corpo e pode dar ordens ao corpo. Mas às vezes, nas tuas personagens, parece que acontece o contrário: o corpo é que molda a mente. Por exemplo, Joseph Walser quando perde um dedo ou as várias personagens com deficiências físicas. De facto, quem manda em quem: o corpo ou a mente?

Eu diria logo que talvez não exista uma separação. Se quisermos agora definir mente, provavelmente temos de passar por definições corporais. Tentar perceber o que é a mente, em oposição ao corpo, pode ser difícil, porque se pensarmos no cérebro, o cérebro é corpo. As funções do cérebro são funções corporais. Tal como a função de levantar um braço. A função de pensar, é evidente que não tem o mesmo tom, mas é uma função que tem algumas parecenças. É óbvio que tem muitas diferenças, mas há semelhanças com o acto de, por exemplo, levantar a mão. O acto de pensar é, claramente, um acto único e nenhum outro acto corporal é semelhante a este. Mas é evidente que nós pensamos de diferentes maneiras. Ao movimentarmo-nos, estamos, certa maneira, a pensar. São pensamentos quase instantâneos. Por exemplo, quando nós fechamos os olhos, diante de uma luz forte, os nossos olhos, de certa maneira, estão a pensar, naquele momento. Eu diria que talvez não exista uma separação entre mente e corpo. Agora, é evidente que essas alterações corporais, como esse exemplo do Joseph Walser quando perde um dedo, essas alterações a um nível brutal de perda de uma parte do corpo são alterações de tal forma significativas que toda a forma de pensar se altera. Portanto, há aqui uma relação. Mas acho que não há uma distinção material. É o mesmo tipo de material.

A guerra interessa-te enquanto pano de fundo para a verdade? Em Um homem: Klaus Klump diz-se que o medo e a fome são exercícios para treinar a verdade. E a guerra traz o medo e traz a fome.

A guerra, como provavelmente todos os momentos limite, é um desses momentos em que as pessoas são levadas até pontos de tal forma extremos que têm de fazer acções que não são normais. Há qualquer, não sei se verdade, mas qualquer coisa que estava escondida nos homens que tem de vir à superfície porque está numa situação limite. E é evidente que só situações como a guerra e outras é que fazem com que essas coisas venham ao de cima. Comportamentos que podem estar escondidos durante quarenta anos. Agora, se isso é a verdade do homem ou não, não sei. O que os personagens fazem ou o que livros dizem não é, necessariamente, a minha opinião. Mas é interessante agora pensando sobre isso, não sei se a verdade é a normalidade ou se aparece apenas nos momentos excepção. Julgo que tanto uma hipótese como a outra são aceitáveis e argumentáveis. Mas o que eu acho claro é que sem esses momentos limite não conseguimos tornar visíveis certas coisas.

Nesse passo de Um homem: Klaus Klump diz-se também que estar apaixonado é outro exercício para treinar a verdade. Porém, não é uma situação tão extrema como o medo ou a fome. Será que podemos de facto juntá-los?

Aqueles momentos de paixão extrema são também, de certa maneira, momentos que saem da normalidade. Ou seja, há comportamentos que nós temos nessas alturas que nos dias comuns, digamos assim, não temos. Há uma espécie de loucura momentânea. Aliás, há quem defina a paixão como uma perda temporária da racionalidade absoluta. Uma espécie de loucura circunstancial ou loucura efémera. Em termos práticos, há coisas concretas que se podem fazer nos momentos em que a pessoa está completamente apaixonada, que não faria noutra situação. E portanto, pode haver alguma ponte para as situações limite, embora sejam muito mais brutais e muito mais fortes, como o medo de morrer. Mas pode haver alguma ponte nesse aspecto.

A paixão ou amor entre duas pessoas, na ideia convencional que dele se tem, não aparece muito na tua obra. Será que é o estado limite, sobre o qual é mais difícil escrever?

Eu acho que aparece em alguns momentos. Por exemplo, eu diria que a paixão ou o amor aparece, se calhar de uma forma não muito evidente, mas aparece e tem muita importância no Jerusalém. Há ali uma relação amorosa da Mylia e uma relação de sacrifício. No final ela, de certa maneira, sacrifica-se. Portanto, é uma personagem ligada à paixão. Aparece também no Aprender a rezar na Era da Técnica, sendo, é evidente, misturada com vários tipos de perversidade. A personagem Julia, por exemplo, hostiliza um avanço do Lenz Buchmann no momento em que este está forte, não correspondendo à paixão ou aos avanços de Lenz, e depois mais tarde, quando ele está doente, ela aproxima-se sexualmente, digamos, do homem fraco, que naquele caso está em decadência. Isso é um pormenor, mas julgo que tem muita força e muita importância no romance. Ou seja, é alguém que se aproxima do outro, quando o outro está fraco. Isto é uma forma de amor, de certa maneira. Claro que não é aquele amor padronizado em que um casal é feliz para sempre. Não é isso, mas há nos romances momentos de amor e de dedicação. Há vários tipos de amor entre casais, mas há também amor entre pais e filhos, etc. Por exemplo, podemos condenar o tom deste amor, mas há claramente uma relação amorosa entre o Lenz Buchmann e o pai. É uma relação de amor e dedicação que marca quase todo o livro. Desde o início, naquela primeira cena, até ao final, há uma quase reverência absoluta ao pai. E podemos utilizar a palavra amor para essa paixão de Lenz pelo pai. Claro que não é um amor com consequências muito agradáveis, mas nem sempre as relações amorosas têm consequências agradáveis para as outras pessoas. Portanto, eu acho que há situações de paixão e amor nos romances. Talvez não seja uma coisa sempre clara, sempre pacífica, porque eu acho que essas situações podem ser um bocado artificiais. Eu acredito que nestes livros o amor aparece em pequenos passos e vem do escuro, da perversidade. Portanto, esses pequenos actos e gestos de amor, paixão e dedicação ganham uma maior força, mas são sempre coisas de pormenor.

Este Reino a que a tetralogia reporta, pelos nomes das personagens, tende a situar-se na Europa Central e de Leste. Por outro lado, a temática em si é universal. Podemos situar a acção em qualquer parte do mundo. Há intenção de a situar em algum local?

Não, não há. Por isso mesmo é que nunca há referência a um espaço concreto. Os nomes das personagens surgiram naturalmente. Quando comecei a escrever o primeiro, Um homem: Klaus Klump, naturalmente, ao começar a escrever com aquele ambiente, apareceram aqueles nomes. Portanto, os nomes das personagens são coisas muito pouco explicáveis. A certa altura, quase que tinham de ser aqueles nomes e não outros, embora por vezes eu hesite em dar um nome ou outro a uma personagem. Mas realmente como disseste, não quero situar em lado nenhum. Infelizmente, aquele ambiente dos dois primeiros romances de guerra e perversidade, é um ambiente que pode ser colocado em vários pontos do mundo. Já houve pessoas que me disseram que podiam situar isto na Europa Central, outros na Europa de Leste, outros na Jugoslávia, outros na América do Sul, outros em África. Portanto, bastava mudar os nomes e podia ser África. Ou seja, infelizmente, há coisas que se estão a repetir numa série de espaços e em tempos diferentes, o que é um bocado assustador.

Estes são os livros pretos. O que seria então um livro branco?

Eu acho que se pensarmos no Senhor Valéry ou no Senhor Calvino, de certa maneira, são livros brancos, na medida em que podem dispor bem os leitores. É criar um mundo artificial, um outro mundo, um mundo paralelo, onde as pessoas se sintam bem e protegidas. Eu não tenho nada contra isso, bem pelo contrário. “O Bairro” acho que é a criação de um outro mundo a que poderíamos chamar, seguindo a tua pergunta, um mundo branco, no sentido em que é um mundo onde nos sentimos protegidos. Eu acho que ali os quatro romances constroem um Reino em que, provavelmente, nós estamos desprotegidos e nos sentimos ameaçados. É importante transmitir às pessoas que realmente há momentos e sítios em que estamos ameaçados e desprotegidos e há outros sítios e outros momentos em que podemos estar protegidos e em segurança. Não sei o que serão os próximos romances, mas, para já, “O Bairro” pode ser um contraponto, mais claro, mais branco, em relação a esses romances.

Falemos do acto que é escrever. Normalmente, quando um escritor começa a publicar, os seus textos da juventude são quase sempre intencionalmente esquecidos pelo próprio. Publicaste textos que já estavam escritos há muito anos.

Sim, mas não são propriamente textos de juventude. Para já há uma questão que é esta: o facto de uma pessoa escrever um texto numa determinada altura e publicá-lo mais tarde, se o livro sair 5 ou 6 anos depois, como no meu caso, o livro que sai nada tem a ver com o livro original. Talvez seja difícil explicar isto mas se nós formos cortando, esmerando, o livro altera-se por completo. Os livros de juventude eu não os publiquei. Aliás, escrevi dois romances mais de juventude, pelos vinte e tal anos, e nunca publiquei, nem vou publicar. Mas foram importantes para o meu processo. Acho que os livros que saíram são todos já depois dos 25 ou 26 anos, não sei. Eu comecei a escrever muito a partir dos 20, mas não me lembro de nenhum livro que tenha publicado e que tivesse sido escrito originalmente entre os 20 e os 20 e tal. A certa altura já comecei a baralhar as datas. Mas nunca considero livros de juventude. Os livros têm data de quando saíram: 2001, 2002… são as datas deles. Porque realmente os livros são escritos nessa altura. Mesmo que tenham sido escritos há 3 anos, quando olho para eles altero coisas tão radicais que é um novo livro. Às vezes, acontece muito, até entre o momento em que eu o entrego ao editor e o momento em que sai, eu faço tantas alterações, tantos cortes, que é um novo livro por completo. Eu acho que as datas dos livros são as datas de saída.

E esses textos que escreveste e não vais publicar, estão guardados? Não tens aquele impulso de destruir as coisas antigas?

Umas coisas já destruí, outras não sei onde tenho, outras guardo só por curiosidade. Há coisas que são interessantes até para a própria pessoa perceber o seu processo, como é que foi evoluindo, como é que foi mudando. É mais uma questão de documento, ter como documento, mas há muitas coisas que eu nem sei onde estão. Eu não sou muito, aliás não teria tempo, de olhar para o que fiz. Tento sempre ver o que quero fazer no momento. Quando pego em alguma coisa que já fiz há uns tempos, é com o olhar de hoje e é completamente diferente. É evidente que há uma série de coisas que para mim já terminaram e não vou voltar a elas, nem vou publicar, nem nada. Portanto, tudo o que está a sair agora, são coisas muito recentes.

Li já há bastante tempo uma entrevista, creio, em que falavas desse tempo dos 20 anos, quando começaste a escrever a sério. Tinhas uma grande disciplina. Ias para o café cedo e lias, escrevias. Continuas a ter essa disciplina tão rigorosa?

Sim. Menos. Continuo a ter disciplina, mas não essa disciplina, por exemplo, ligada às manhãs. O Água, Cão, Cavalo, Cabeça, por exemplo, foi escrito à noite. Ou seja, continuo a ter disciplina, mas não é uma disciplina que seja repetida. Às vezes num mês tenho uma determinada disciplina, escrevo a determinadas horas, e se calhar passados uns meses mudo. Realmente dos 20 aos 30 foi uma coisa de regularidade completa. Agora, por determinadas circunstâncias, não é possível ser tão – eu acho que não é disciplinado, eu continuo a ser disciplinado – mas não é possível manter esses horários todos com rigidez.

E ainda escreves em cafés?

Menos. Ainda escrevo, mas bastante menos do que escrevia. Ou seja, gradualmente – e é interessante que é quase também a entrada nos romances que corresponde a isso, porque eu escrevo os romances em computador – fui deixando de escrever em cafés para passar a escrever no computador, em casa. É interessante porque isso também correspondeu a uma mudança. Vários escritores, no passado e ainda hoje, escrevem romances em cafés, à mão. Eu não consigo isso. A escrita à mão é uma escrita mais fragmentada. E portanto ultimamente tenho escrito mais a computador. Mas continuo a ir a cafés. O que faço nos cafés é mais a segunda fase da escrita, cortar, rever, etc. Isso faço muito em café. A primeira escrita, que é o mais importante, porque fica a pedra bruta, faço em casa. E depois é dar retoques, que são muito importantes. Eu demoro horas e horas. Demoro, sei lá, dez vezes mais a rever uma página do que a escrevê-la. E esta parte de revisão, corte, é em cafés. A escrita, agora, é mais em casa.

É fácil estares concentrado num café?

Sim. Aliás, nesse período, até aos 30, era quase indispensável para mim ter um ruído de fundo para escrever. Neste momento, realmente, escrevo mais em casa, mas consigo concentrar-me perfeitamente em cafés ainda e gosto daquele barulho de fundo. Claro que se houver uma conversa localizada muito próximo de mim, isso pode perturbar-me. Mas o ruído de fundo de várias vozes, eu considero isso uma paisagem sonora que é muito estimulante. Até, às vezes, mais estimulante que o silêncio.

És um escritor que pratica todos os géneros. Há algum que te dê mais prazer?

Há muitas diferenças, claro, entre os vários livros, mas vejo que pertencem ao mesmo mundo. E portanto não sinto mais prazer a fazer uma coisa do que outra. Em certas alturas tenho mais prazer em escrever um determinado tipo de livros, ou num determinado tom. Passados seis meses ou um ano posso ter mais prazer a escrever num outro tom completamente diferente. O que eu tento é escrever num determinado momento, as coisas que me interessam, que me entusiasmam e que me dão prazer nesse momento. Não escrever apenas um género à força. Por exemplo, acabei há três meses de rever muito pormenorizadamente o Aprender a rezar na Era da Técnica, que é talvez o livro mais complexo e mais denso, e é um tipo de esforço tal que eu, neste momento, não tenho vontade de escrever outro romance. Tenho vontade de escrever outras coisas, noutro tom. Mas eu não diria que tenho mais prazer em escrever uma coisa ou outra. Depende muito da altura.

Tu ganhaste muitos prémios. O que é que achas que vem primeiro: primeiro o escritor é reconhecido e, a partir daí, chama a atenção desses prémios, ou primeiro ganha prémios e é reconhecido depois?

Felizmente, desde cedo os livros começaram a ter atenção de leitores especializados e isso foi desde o início. Acho que é uma coisa que está ligada. Até porque, normalmente, os elementos de um júri são pessoas escolhidas. Há júris melhores e há júris piores, mas, por exemplo, o do prémio Portugal Telecom do Brasil era um júri super seleccionado de alguns dos melhores críticos do Brasil. Portanto isso está muito ligado. O que eu acho claro é uma dissociação, eu acho que tento separar isso e acho que vou conseguir separar bem, entre aquilo que eu faço, que é da minha responsabilidade, e aquilo que é da responsabilidade dos outros. Aquilo que eu faço, e que é da minha responsabilidade, são os livros. As opiniões, os prémios que dão ou um prémio que possam não dar a um livro, isso é responsabilidade das pessoas, dos júris. Não é um trabalho meu. Quando eu escrevo um livro, o meu mérito é escrever o livro. Se o livro recebe um prémio, digamos que o mérito não é meu. O trabalho não foi o meu. O meu trabalho foi escrever o livro. A responsabilidade de atribuir um prémio não é nunca do autor. Portanto, eu distingo bem, porque a confusão entre as duas coisas é que pode provocar um auto-maravilhamento da pessoa, completamente disparatado. Aquilo em que alguém que escreve um livro – ou pinta, ou está ligado às artes plásticas, ou ao teatro – deve estar concentrado é no seu trabalho. E isso é que eu acho muito importante. Estar atento ao que vão dizendo sobre o seu trabalho, porque é importante ter a noção, mas perceber sempre que o seu trabalho deve ser mais ou menos independente do que vai acontecendo à sua volta. E eu tenho tentado fazer isso.

Para além da projecção que dão e do próprio prémio monetário há mais alguma utilidade num prémio?

Em termos monetários é realmente importante. Agora no Prémio Portugal Telecom no Brasil perguntaram-me o que é que eu iria fazer com o prémio monetário. Eu disse que uma das coisas que vou fazer é comprar tempo. Porque é realmente importante. Se eu tiver outros trabalhos e não tiver tempo e disponibilidade para escrever é evidente que isso pode ser um problema. O que me agrada nisto é poder comprar tempo. Um prémio dar-me a possibilidade de ter mais disponibilidade para continuar a escrever. Eu não quero mais nada, em termos materiais, se não a questão do tempo. O tempo agrada-me imenso e é a coisa mais valiosa que há. Não quero carros, nem casas, quero é tempo, tempo, tempo. E esses prémios podem dar a possibilidade de uma pessoa comprar tempo. É mesmo comprar tempo. Quando uma pessoa está a morrer, o que quer é tempo. Não quer mais uma casa, ou mais um automóvel. Não acredito que um moribundo, à última hora, o último pedido que faça seja mais um carro de alta cilindrada. Provavelmente o que ele vai dizer é: eu quero mais tempo, mais tempo de vida. Nós não precisamos de estar moribundos para percebermos que o essencial é o tempo. Nisso a filosofia clássica é muito importante. Portanto, eu tento que esses prémios e essas coisas que me vão acontecendo, me possibilitem ter mais tempo para ler, escrever, ir ver coisas. Isso é que é muito importante.

Continuas a dar aulas. Queres continuar a manter actividades paralelas ou gostavas de te dedicares só à escrita?

Em todas as coisas há vantagens e desvantagens. A desvantagem pode ser não ter tanta disponibilidade para a escrita. Mas há a vantagem de poder contactar com pessoas, a geração de vinte e tal anos, em diferentes situações. É ter um conjunto de experiências e de contactos que são importantes. Eu acho que podia ser perigoso se eu estivesse constantemente fechado num quarto, sem contactar com pessoas. Aliás, eu tenho quase uma certa tendência para me fechar e dar aulas obriga a pessoa a sair um pouco de si própria e virar-se para o exterior, o que eu acho que é importante. Tal como, por exemplo, algo que eu há algum tempo via com desagrado e que agora já me começa a dar um certo prazer, que são as viagens. Eu durante muito tempo gostei muito de viajar, depois recentemente deixei de gostar tanto e agora estou a ganhar um novo gosto em viajar. São, precisamente, um conjunto de experiências que nós podemos pensar, à primeira vista, que são uma perda de tempo para a escrita, mas, se as virmos de um outro prisma, são a possibilidade de contacto com outros pormenores de vida. Talvez daqui a uns anos só escreva e não tenha outro tipo de trabalho, mas para já acho que é importante ter estas duas actividades, até para dosear um pouco o meu fechamento em relação ao mundo. Viajar é engraçado. Lembro-me que há dois ou três anos disse que não gostava nada de viajar e hoje, em 2008, estou a ter um impulso e uma nova vontade de viajar e estar duas semanas em Buenos Aires como provavelmente vou estar. É um conjunto de experiências que me começa a entusiasmar. É engraçado como os nossos gostos vão mudando muito e às vezes em poucos anos.

E as viagens de trabalho? São diferentes?

Sim, mas eu acho que para quem escreve, assim como para um artista plástico por exemplo, é muito difícil separar trabalho de não trabalho, num certo sentido. É evidente que há momentos em que estou a escrever e há momentos em que não estou a escrever. Mas os momentos em que não estou a escrever, se estou num café, por exemplo, e há uma discussão entre um casal numa mesa ao lado, eu quase instintivamente absorvo alguma coisa desses pormenores. Portanto, a observação é também, de certa maneira, um trabalho. Claro que não é um trabalho directo de escrita, mas a observação de coisas diferentes, de pessoas, de reacções, é algo que vai alimentando um escritor. Eu considero um trabalho de escrita uma coisa que eu faço com alguma regularidade, que é andar muito, uma hora ou meia hora, pela cidade, a ver as pessoas. Eu considero isso um trabalho de escrita, apesar de não pegar na caneta nem no papel. Mas é um trabalho de observação, em que vou pensando, vou observando, e considero que isso é a primeira fase da escrita.

Dizias há pouco que já tinhas publicado quase tudo o que tinhas escrito anteriormente. Agora que começas a publicar coisas mais recentes, não vais publicar tantos livros como publicaste nestes últimos anos?

Não sei. Provavelmente não. Mas não há nenhuma regra. Eu acho importante não ter nenhuma regra quanto a isso. Ou seja, eu acho que muitas vezes há uma adaptação da saída dos livros a um ritmo que não é literário mas que é comercial. Por exemplo, sair um romance de dois em dois anos. A máquina de Joseph Walser e o Jerusalém saíram com três meses de diferença, que é uma coisa comercialmente absurda. Mas, por exemplo, no ano passado saíram só dois livros: Breves notas sobre o medo e Aprender a rezar na Era da Técnica. Não sei se este ano será um ritmo maior, menor, não sei. Acho que em 2004 saíram seis ou sete livros e isso será difícil voltar a acontecer. Mas não acho isso nada de estranho. O que eu quero é não ter regras a esse nível. Não quero entrar nesse tipo de padrão de um autor ter que publicar só dois livros ou só um livro. São padrões não literários. Se eu na altura conseguir escrever muito e rever muitos livros, podem sair muitos livros. Se eu não conseguir rever com atenção um livro, pode não sair nenhum. O que eu acho interessante é que a data de saída não é o mais relevante. Podiam sair 50 livros no mesmo dia. A data relevante é a data em que um leitor lê esse livro. Uma das coisas mais interessantes que me acontece, e aconteceu-me isso há dois, é chegar alguém e dizer: eu li ontem O Senhor Valéry. É um livro que saiu e
m 2002, há 6 anos. E eu fico muito contente, porque é isso: o momento em que o livro sai não é importante, o momento em que o livro é lido por um determinado leitor é que é importante. Há pessoas que leram O Senhor Valéry em 2002, pessoas que leram em 2003, pessoas que leram em 2008, pessoas que, espero eu, o vão ler em 2012. Portanto, se nós pensarmos que o importante é o momento em que o leitor lê, que pode ser completamente diferente para cem leitores, a data de saída do livro tem pouquíssima importância. E é assim que eu tento pensar, que o momento importante é o momento em que cada leitor lê um livro.

Mas a publicação de tantos livros não dificulta o acompanhamento da tua obra por parte dos leitores?

Pois, eu compreendo que é muito difícil. Às vezes aparecem pessoas na Feira do Livro com os livros todos, mas mesmo todos. Há assim uns loucos que acompanham tudo. Mas percebo que é difícil. Só que quem faz não pode estar a alterar o ritmo do que faz pelos critérios da recepção. É um pouco isso que eu tento seguir. É evidente que se uma pessoa conseguir ler os livros todos fica com uma ideia melhor do que eu faço. Ninguém tem uma ideia do que eu faço se ler um livro ou dois meus. Há muito mais livros, os livros são muito diferentes. Para alguém ter uma ideia do que eu faço tem que ler vários livros. Agora, não é preciso que leiam todos. Mas felizmente, como disse, há várias pessoas que vão acompanhando e a maior parte dos livros são livros pequeninos que se lêem com facilidade, portanto acho que é possível ir acompanhando. Às vezes há esse prazer, ir acompanhando todos os livros de um autor e no meu caso pode ser mais difícil. Não sei. Vamos ver como vai ser o ritmo do futuro. Mas eu acho que é importante quem está a fazer não alterar os seus modos de fazer por, por exemplo, uma característica que é claramente destruidora. Nas livrarias, um livro que sai está dois meses numa livraria e depois desaparece. Eu, como alguém que escreve, não posso alterar os meus modos de fazer por causa dessa regra, que é uma regra não literária, puramente comercial. A mim agrada-me que um livro possa ser lido três ou quatro anos depois de ser publicado. Perdeu-se um bocado isso pelo facto de as livrarias estarem constantemente a mudarem os livros, mas um livro não é para ser publicado em Novembro de 2007 e ser lido, por todos os leitores, em Novembro de 2007. Isso não é a essência de um livro. A essência do livro é uns lerem-no em Novembro de 2007, outros em Novembro de 2008, outros em 2015, outros em 2025, se tudo correr bem. Isso é o normal. Eu gostava que os leitores fossem lendo quando for, não precisam de ler um livro mal ele sai.

Foi por teres publicado muitos livros em pouco tempo que publicaste em várias editoras?

Sim, um pouco. E também dirigia livros com um certo tom para editoras que tinham a ver com esse tom. Por exemplo, a série Enciclopédia, que está a sair na Relógio d’Água, sai lá porque faz sentido. A editora tem a ver com aqueles livros. Tal como os livros que estão a sair na Caminho, acho que têm a ver com aquela editora. Acho que foi um pouco isso, dirigir os diferentes tons para diferentes editoras.

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